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domingo, 25 de janeiro de 2026

Copa do mundo: a bola para além do jogo

Confesso sem constrangimento: sou quase um analfabeto em futebol. Não sei escalar time, não acompanho campeonatos, não me comovo com gols aos quarenta do segundo tempo. Como atleta, esse esporte simplesmente não me mobiliza. Ainda assim, seria intelectualmente desonesto fingir que ele é irrelevante. O futebol mobiliza bilhões de pessoas, atravessa fronteiras, dissolve idiomas e cria uma linguagem comum onde quase nada mais consegue chegar. Poucos fenômenos humanos alcançaram tamanho poder simbólico.

É justamente por isso que a Copa do Mundo deste ano chama atenção (não pelo jogo em si, mas pelo que o cerca). Há algo de excessivo no ar, algo que extrapola as quatro linhas. A impressão é que o futebol deixou de ser apenas futebol. O evento se anuncia como espetáculo, mas funciona como ato político em estado bruto, cuidadosamente embalado para parecer celebração universal.

Sob a estética da festa, do sorriso televisionado e das narrativas épicas, ergue-se um grande palco de poder. Estados, corporações, federações e interesses geopolíticos desfilam seus pactos e estratégias enquanto o mundo canta hinos e pinta o rosto. A bola rola, mas não apenas por esporte. Ela rola para legitimar regimes, silenciar críticas, reescrever imagens públicas e normalizar alianças que, fora do gramado, causariam desconforto.

O futebol, nesse contexto, torna-se linguagem diplomática. Um idioma eficaz porque dispensa tradução crítica. Quem ousa questionar o evento é acusado de estragar a festa, de politizar o que “sempre foi só jogo”. Como se o futebol, em sua dimensão global, jamais tivesse sido instrumento de poder, propaganda e controle simbólico.

Não se trata de condenar quem vibra, torce ou se emociona. A paixão é real e legítima. O problema está em ignorar o que acontece nos bastidores enquanto os olhos estão fixos no espetáculo. Por trás das bandeiras e das comemorações, há interesses econômicos gigantescos, decisões políticas calculadas e uma lógica imperialista que se recicla sob a aparência da neutralidade esportiva.

Creio que o mais honesto, mesmo para quem não entende nada de futebol, seja reconhecer isso: quando um evento mobiliza o mundo inteiro, ele nunca é inocente. O futebol pode até ser jogo. Mas a Copa, definitivamente, não é só bola.

E é justamente aí que reside sua força mais perigosa: na capacidade de naturalizar o extraordinário.

Enquanto se celebra a diversidade nos comerciais e a união nos discursos oficiais, normalizam-se violações, apagam-se conflitos e suavizam-se desigualdades profundas. O espetáculo não mente; ele seleciona o que pode ser visto. O que fica fora do enquadramento simplesmente deixa de existir para o grande público.

A Copa, assim, funciona como uma pausa moral coletiva. Durante algumas semanas, suspende-se o incômodo, adia-se o debate, silencia-se a crítica em nome da emoção compartilhada. O problema não é torcer, mas esquecer. Não é vibrar, mas consentir sem perceber. O espetáculo global exige aplauso, não reflexão; talvez seja exatamente por isso que ele seja tão eficiente.

Ao fim do torneio, os estádios permanecem, os contratos seguem válidos, os acordos continuam operando. A festa acaba, mas o poder não. E enquanto a bola segue rolando na memória afetiva dos torcedores, as estruturas que se beneficiaram do evento seguem intactas, discretas e muito bem posicionadas para o próximo grande espetáculo.

Wenilson Salasar de Santana
Wenilson Salasar de Santana
Professor de leitura e escrita. Atleta no tempo livre. Produz ensaios literários em forma de conto, poema e crônica reflexiva, articulando linguagem, experiência e crítica do cotidiano.

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