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sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Trabalhadores de aplicativo e a precarização invisível da aposentadoria no Brasil

Carga horária alta, renda variável e baixa contribuição previdenciária formam a combinação perfeita para uma crise social futura. A solução passa por modelos flexíveis de poupança de longo prazo integrados às plataformas.

Há um Brasil que trabalha muito e dorme pouco. Um Brasil que roda mais de 12 horas por dia em aplicativos, que entrega refeições, transporta passageiros, sustenta a economia da conveniência, e que, apesar disso, chega à velhice com a proteção social por um fio. Se nada for feito, a maior força de trabalho em expansão no país corre o risco de se tornar também a maior massa de idosos sem renda previdenciária no futuro.

O crescimento desse contingente é inequívoco. Segundo o IBGE, o número de trabalhadores de plataforma cresceu 25,4% apenas entre 2022 e 2024, alcançando mais de 1,7 milhão de pessoas. Eles ganham, em média, R$ 2.996, renda superior à do trabalhador formal médio, mas trabalham por mais horas, sem férias, 13º, FGTS ou benefício previdenciário estável. Apenas cerca de 40% contribuem hoje para o INSS. Ou seja, há renda, mas não há proteção.

Nesse contexto, ganha força a discussão sobre novos formatos de proteção social. Em vez de insistir em modelos previdenciários rígidos, que pressupõem vínculo formal e renda estável, o país precisa avançar para soluções compatíveis com a lógica das plataformas digitais. Estudos recentes apontam para alternativas que permitam contribuições fracionadas, proporcionais ao ganho por corrida ou entrega, com ajustes automáticos definidos pelo próprio trabalhador. O que hoje depende de uma decisão voluntária e eventual — contribuir no fim do mês — pode se transformar em um mecanismo de poupança embutido na própria dinâmica de trabalho.

Ao permitir que o trabalhador contribua em valores pequenos, recorrentes e de forma integrada ao aplicativo, esse modelo reduz a fricção que historicamente afasta autônomos do sistema previdenciário. Não se trata de impor vínculo empregatício, mas de oferecer instrumentos inteligentes de acúmulo de longo prazo, algo já testado em sistemas internacionais de micropensões, que associam renda variável à formação de patrimônio previdenciário.

O contra-argumento mais comum é o da “liberdade”: muitos defendem que o trabalhador de aplicativo não quer vínculos e não aceitaria qualquer tipo de contribuição automática. Mas essa tese parte de uma falsa oposição. Flexibilizar a forma de contribuir não significa retirar autonomia, significa ampliar as opções. Liberdade real pressupõe escolha, e não a ausência completa de proteção.

Se o Brasil não inovar na forma de financiar a proteção social, continuará parado no tempo enquanto o mundo avança. O Reino Unido, o Quênia e a Índia já implantam sistemas de micropoupança previdenciária automática para trabalhadores por conta própria. A economia digital exige uma previdência do século XXI, não a repetição das estruturas do século passado.

A pergunta não é mais se vamos incluir os trabalhadores de aplicativo no sistema previdenciário, mas como e quando. Cada ano perdido significa um país mais velho, menos protegido e mais desigual. O custo da inação será pago em políticas assistenciais no futuro, muito mais caras que a prevenção hoje.

Não podemos aceitar que quem move o Brasil hoje seja abandonado amanhã. O trabalhador de aplicativo já entendeu que precisa correr para sobreviver no presente. Agora, precisa ter também o direito de caminhar com segurança em direção ao futuro.

Autor:

Devanir Silva é diretor-presidente da Abrapp(mandato 2025–2027) e atua no setor de previdência complementar desde 1981. Administrador de empresas, exerce há 42 anos cargos de liderança na Associação. Ao longo de sua trajetória, frequentou cursos no Brasil e no exterior, incluindo a Wharton School da Universidade da Pensilvânia (EUA), e acompanhou de perto processos internacionais de reforma previdenciária, como a privatização do sistema no Chile. É autor dos livros Fundos de Pensão e a Abrapp: História de Lutas e Vitórias (Editora Abrapp, 2014) e Ressignificar a Previdência: O Novo Ciclo de Transformação e Expansão da Abrapp e dos Fundos de Pensão (Editora Abrapp, 2025), além de representar a entidade na Organização Ibero-americana de Seguridade Social.

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