Virada de ano é tempo de fazer o balanço das realizações e listar as metas para o ano seguinte: começar dieta, matricular-se na academia, escrever um livro, terminar o livro que começou a há anos etc. Grande ou pequena, ninguém confere ou leva a sério essas listas. Conheço gente que ganha dinheiro fazendo listas de metas para pessoas que tem preguiça de fazer lista de metas.
Quem não tem casa na praia, quer comprar. Quem tem, quer se livrar dela. Quem tem carro velho, quer comprar um mais novo. Quem tem Marea Turbo sabe que não venderá. Solteiro quer se casar, casado se separar. Obeso quer emagrecer, magro quer ganhar peso. Loira quer amorenar e morena quer loirar. Minha vizinha quer ter um filho em 2026 e uma prima quer rifar seus filhos. Resumindo, pouca gente está feliz com o que tem ou com o que é.
Virada também é tempo de consultar videntes e cartomantes. O mercado de previsão do futuro está em alta. Soube de um casal que marcou sessão com um especialista em Constelação Familiar formado no Google, para ver se param de brigar em 2026. Porém, no dia da sessão a mulher foi embora. Para o Consultor, é preciso deixar ir o que precisa partir para abrir espaço para o que está para chegar. O marido gostou da frase, pois sabe que ela se manda no réveillon, no carnaval, mas sempre volta. Para o Consultor, se ela volta é porque outros também a deixaram partir, ou seja, ninguém quer essa tranqueira! A mulher dele voltou e encontrou marido e Consultor vivendo juntos e felizes. A tranqueira dançou!
Existem simpatias e manias típicas de fim de ano. Benjamim Medici, o Ben, cultiva o hábito de fazer listas de metas, que tranca no cofre do escritório da mansão no sítio em que vive isolado do mundo. Bem Medici é respeitado por seus princípios: dizer só a verdade, honrar compromissos, ajudar o próximo etc. Toda tarde, um Capelão vai ao sítio para rezarem o rosário, fumar charuto e tomar vinho na varanda. Na caneca de Bem Medici está gravado: “Minha casa, minhas regras”.
Pela primeira vez, Ben Medici, já com idade avançada, recebeu familiares e amigos para as festas de fim de ano. Após o rosário puxado pelo Capelão, Ben inventou de morrer, minutos antes da meia noite de 31 de dezembro. Mesmo com a suspeita de envenenamento, ninguém chamou a polícia.
Velório rápido, corpo cremado e cinzas jogadas no rio. A notícia vazou e, do nada, apareceram credores, três viúvas, supostos filhos e duas grávidas alegando que Ben Medici é o pai.
– Ele deixou testamento? – perguntou uma das mulheres.
– Sim. O advogado elaborou – disse Maria do Rosário, a cuidadora.
– Quem chama o advogado dele? – perguntou outra mulher.
– Ken Chamas, o advogado dele – respondeu o Capelão, tio da cuidadora.
– Foi o que eu perguntei. Quem chama o advogado dele?
Ao saber da morte do cliente, o doutor Ken Chamas pediu ao Capelão para reunir os interessados na mansão após a missa de 7o dia. Um arrombador teve de abrir o cofre, pois ninguém tinha a chave ou sabia o segredo. Em seu interior, várias listas de metas, extratos do Banco Master, bilhete da Mega da Virada, um laudo médico atestando esterilidade congênita, passaportes falsos, coleção da revista Playboy, escritura da fazenda em Caracas e ações da PDVSA, a petroleira venezuelana. Num envelope lacrado, o testamento, registrado e com firma reconhecida.
Houve protestos quando o doutor Ken Chamas leu o testamento e souberam que Maria Rosário, a cuidadora, é a única herdeira da casa e da fortuna. Ninguém mais herdou um centavo. O advogado nada recebeu, mas contentou-se com a coleção da Playboy.
O Capelão providenciou segurança, pois sabia que o clima azedaria. Em minutos, todos foram expulsos da propriedade. Enquanto a cuidadora saboreava a vitória fumando charuto e bebendo vinho canônico na caneca de Bem Medici, o Capelão e o doutor Ken Chamas conversavam na sala.
– Bela missa – disse o advogado. Linda homilia.
– O Ben era muito religioso. Rezávamos o rosário diariamente.
– Ele deixou toda a fortuna para a cuidadora. Homem caridoso.
– Doutor, fica tranquilo. O cheque dos seus honorários está no cofre da Capela.
– Ele nunca me decepciona.
– Já é tarde. Melhor dormirmos no sítio e partir amanhã.
– Concordo. O que tem por perto para um solteiro se divertir?
– Ah, doutor, diversão por aqui é só vinho canônico e rosário.
– Nesse caso, prefiro vinho.
– Rosário, traz vinho para o doutor!



👏👏👏👏👏👏👏👏
Obrigado, Solange.
Dá até para ser roteiro de filme.
Verdade. Vou ver se alguém quer produzir. KKK
… e quem ficou com o rosário da Rosário?
Boa pergunta! Obrigado pelo comentário, Ita.