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sábado, 24 de janeiro de 2026

Um rito de autocuidado

Reorganizar prioridades costuma ser vendido como um gesto de maturidade, quase sempre associado a equilíbrio e bem-estar. Pouco se fala, porém, sobre o custo silencioso desse movimento. Quando alguém decide mudar o ritmo, recusar convites e estabelecer limites claros, não recebe aplausos. Recebe estranhamento. No Brasil, onde a vida social é intensa e a disponibilidade constante virou prova de afeto, dizer não soa como afronta pessoal.

Esse processo começa, muitas vezes, por exaustão. Profissionais sobrecarregados, professores adoecidos, mães e pais esgotados, jovens pressionados a corresponder a expectativas familiares e sociais percebem que manter tudo como está cobra um preço alto demais. A escolha pela própria saúde emocional surge não como luxo, mas como necessidade. Ainda assim, ela é interpretada como egoísmo por quem nunca precisou lidar com o limite.

O isolamento aparece de forma gradual. Amigos se afastam quando você deixa de estar sempre disponível, colegas interpretam o silêncio como desinteresse, familiares questionam mudanças de comportamento. A pessoa que antes resolvia tudo passa a ser vista como alguém difícil. Essa solidão não é fruto da rejeição direta, mas da quebra de um papel social que sustentava relações baseadas na conveniência.

No ambiente de trabalho, o impacto é ainda mais visível. Quem decide não responder mensagens fora do expediente ou recusa demandas abusivas passa a ser rotulado como pouco comprometido. Em um país que normalizou jornadas extensas e glorificou o cansaço como mérito, priorizar a própria saúde emocional é quase um ato de desobediência. Ainda assim, é essa decisão que impede o adoecimento contínuo e silencioso.

Há também o desconforto interno. Reorganizar prioridades exige confrontar culpas, medos e a sensação de estar decepcionando pessoas. Não existe manual que ensine a lidar com o vazio deixado por hábitos antigos. A solidão desse processo não é apenas social, mas também íntima, pois obriga a encarar quem se é sem a validação constante do outro.

Com o tempo, algo se ajusta. As relações que permanecem passam a ser mais honestas, menos baseadas em obrigação. A vida ganha outro ritmo, talvez menos barulhento, mas mais coerente. No Brasil real, onde muitos vivem no limite emocional, esse ajuste não é confortável, mas é transformador. Ele redefine o valor do tempo, da presença e do próprio cuidado.

No fim, a conta é simples e dura. Quem paga o preço da vida vivida é sempre o próprio indivíduo. Ninguém adoece no seu lugar, ninguém carrega seu cansaço nem responde por suas escolhas. Reorganizar prioridades é um caminho solitário, sim, mas também é um gesto de responsabilidade consigo mesmo. E assumir essa responsabilidade é, muitas vezes, o primeiro passo para uma vida que faça sentido.

Wenilson Salasar de Santana
Wenilson Salasar de Santana
Professor de leitura e escrita. Atleta no tempo livre. Produz ensaios literários em forma de conto, poema e crônica reflexiva, articulando linguagem, experiência e crítica do cotidiano.

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