Olhando pelo retrovisor do seu carro de última geração, Caio olhava preocupado para a sua mãe que estava no banco traseiro do passageiro. Com a dor estampada em seu rosto, Dona Rosalva carregava em suas linhas de expressão as maiores dores vividas por um ser humano: um filho preso e uma filha que havia partido para todo o sempre.
Com sua alma enlutada, Dona Rosalva fazia de tudo pelo seu filho Caio, desde a água servida o dia inteiro, aos cuidados diários de casa. Mesmo com seu semblante cansado e uma performance que deixava a desejar, ela lutava dia a dia para sobreviver com as perdas de seus filhos que ela tanto amava.
De outro lado, Caio a tratava como uma conhecida, afinal de contas ele não tinha sido criado por ela.
Dona Rosalva o teve quando ela ainda era praticamente uma criança. O destino traçou sua vida de uma forma inesperada aos quatorze anos quando ela deu à luz a Caio, um menino robusto e cheio de energia. Mas, a vida se encarregou de tomá-lo dela. A família paterna de Caio, num instinto de proteção àquela criança, tirou o que Dona Rosalva mais amava, seu filho primogênito e, a partir daquele momento, a vida dela foi só ladeira abaixo e ela sentiu o primeiro luto. Dona Rosalva sofria sozinha a perda de seu filho Caio, mas acalmou seu coração quando viu que ele estava melhor assistido pela outra família, mas nunca deixou de sofrer por um momento tão devastador em sua vida.
Morando em outra cidade, Dona Rosalva se contentava com as visitas esporádicas que Caio fazia à ela e quando ele a visitava, seu coração transbordava de amor.
Mas, a vida – ah, a vida! – ela vira do avesso as vidas de cada um e com Dona Rosalva e Caio não foi diferente.
A dura realidade de seu segundo matrimônio fez com que Dona Rosalva tivesse um destino extremamente implacável: o contato com entorpecentes fez com que ela fizesse escolhas que ela nunca mais poderia mudar em sua vida. Na rua, desassistida e completamente vulnerável, ela sobrevivia dia e noite em busca de respostas que nem mesmo ela sabia que havia. Seus filhos, que depois foi preso e a outra veio a falecer, a acompanhava por onde quer que ela fosse ou ao contrário. Eram inseparáveis e o amor, como era de se esperar, incondicional.
Quando seu filho caçula foi preso por supostamente se defender, ela morreu pela segunda vez e, como se a vida dissesse: “você aguenta mais que isso”, veio o falecimento de sua filha amada. O terceiro luto se instalou em sua vida e o sorriso de Dona Rosalva foi desaparecendo pouco a pouco.
Sem saída e totalmente desamparada, Dona Rosalva se apegava à sua pouca fé até que certa tarde de um domingo seu filho Caio apareceu e a levou para a capital federal para cuidar dela.
O cuidado dele chegava a ser paternal. Impositivo, ralhava com ela a todo momento não percebendo ele que a vida já tinha sido dura demais com aquela mulher e o que ela mais precisava era de um pouco mais de carinho, um colo, uma palavra de consolo.
Caio, inconscientemente, não percebia o quanto ele era duro com sua mãe, enquanto ela fazia de tudo para agradá-lo. Mas, Dona Rosalva tinha seus rompantes também, mas, como não tê-los? Era humanamente impossível carregar tanta dor em um ser humano só e, vez ou outra, não extravasar aquela dor.
Posteriormente diagnosticada com transtornos psicológicos, Caio cuidava daquela mulher, que parecia mais uma estranha no ninho, mas, mesmo assim, abriu mão de um casamento de mais de vinte anos para cuidar de sua mãe. O amor imbuído naquele homem que parecia de ferro, era constante. O maior medo de Caio era ser responsável pela morte de sua mãe e deixá-la voltar para a cidade natal dela significava que ele iria carregar o caixão dela, sem sombra de dúvida. Mas, ao olhar pelo retrovisor novamente, se deu conta que Dona Rosalva estava definhando por não poder ver seu filho caçula que estava numa prisão de uma cidade qualquer.
Tentando dar o melhor de si para aquela mulher que cuidava dele com tanto carinho, Caio a colocou no carro e não disse para onde ia. Dona Rosalva entrou no carro e em seus pensamentos seu filho caçula vinha em sua mente e a dor de não vê-lo por mais de cinco anos, a destruía todos os dias.
Até que Caio parou em frente à uma penitenciária e anunciou que haviam chegado ao seu destino. Dona Rosalva, sem entender nada, desceu do carro e só quando adentrou o recinto percebeu que se tratava de uma prisão federal. Seu coração disparou, sua pupila dilatou e o choro veio como um raio, sem pedir permissão.
Ao ver seu filho caçula diante dela, Dona Rosalva agradeceu ao Universo por ter permitido que ela visse seu filho mais uma vez antes dela partir para sempre.
Ao retornarem para Brasília, Caio percebeu que sua mãe havia recebido uma injeção de ânimo. Mais animada, Dona Rosalva chegou a ensaiar um sorriso novamente, mesmo que timidamente, mas, seu sorriso sincero dizia o que ela não conseguia dizer em palavras: obrigada, meu filho.
Infelizmente, não demorou muito para Dona Rosalva deixar Caio para sempre. Seu coração oprimido e cheio de dor fez com que ela tivesse sua última noite ao lado de seu filho Caio onde pode sorrir ao lado dele e sentir-se em paz como há mais de quarenta anos ela nunca se sentira.


