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quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Seis Palavras que Mudaram Minha Vida: A Lição do Pai Joaquim

Uma Crônica sobre Fé e Proteção Espiritual

Há muitos anos eu era aquele rapaz que caminhava pela vida carregando no peito uma mochila pesada de dúvidas. Não era apenas curiosidade espiritual ou busca por respostas fáceis. Era mais profundo que isso: era a confusão de quem vive em um mundo que não compreende, cercado por pessoas cujos comportamentos parecem inexplicáveis.

Eu não sabia como viver isso tudo. Como aceitar que pessoas podem ser tão diferentes — umas generosas, outras cruéis; umas leais, outras falsas. Como entender as ruas que pisava, as relações que construía, os caminhos que parecia estar trilhando à deriva, sem bússola, sem mapa.

A Umbanda chegou em minha vida como um farol em meio à neblina.

Não foi uma revelação dramática, mas sim um chamado irresistível.

Aprender sobre a Lei do Retorno — aquela lei de que tudo o que vai volta na mesma intensidade — começou a reorganizar meu entendimento da vida. Cada gesto tinha peso. Cada palavra carregava energia. Cada ação deixava marcas no tecido invisível do universo que, inevitavelmente, retornaria para mim.

Isso mudou tudo.

De repente, o mundo começava a fazer sentido. As pessoas cruéis não eram simplesmente más — estavam plantando sementes que colheriam logo alí. As pessoas generosas não eram apenas boas — estavam criando proteção espiritual em torno de si mesmas, atraindo bênçãos. Eu não era uma vítima impotente do caos — era um agente de meu próprio destino, responsável por cada palavra, cada gesto, cada ação.

Mas ainda havia algo que eu não entendia completamente.

Eu pedia proteção constantemente. Desesperadamente, alguns dias. Pedia aos Guias, pedia ao universo, pedia a Deus. Meu coração pedia por amparo, por resguardo contra os perigos visíveis e invisíveis. Eu estava tão focado em pedir proteção que esquecia de estar protegido. Tão ocupado que perdia a percepção dos cuidados que já recebia.

Até aquela noite.

Eu estava no terreiro, e a gira havia começado. Os pontos cantados ecoavam pelo espaço, o tambor batia em ritmo hipnotizante, o incenso perfumava. Meu corpo estava presente, mas minha mente ainda vagava por preocupações — rotina, incertezas, medos cotidianos.

E então, como se alguém tocasse meu ombro espiritual, ouvi um sussurro.

Não foi uma voz alta ou dramática. Não era para todos ouvirem. Era um sussurro, direcionado ao meu ouvido, como se o próprio Pai Joaquim das Matas se aproximasse de mim com a delicadeza de um avó, com aquela sabedoria que apenas os ancestrais possuem. E ele disse, com clareza cristalina:

“É preciso Gratidão para ter Proteção.”

Seis palavras. Apenas seis palavras.

Mas aquelas seis palavras carregavam uma densidade que levou anos para eu começar a compreender verdadeiramente.

Naquele instante, o sussurro do Pai Joaquim tocou algo em mim. Não era repreensão. Não era julgamento. Era a voz de alguém que já viveu séculos — ou milênios — de encarnações, que já experimentou escravidão, sofrimento, perda, e apesar disso — ou talvez por causa disso — conseguiu enxergar o que eu ainda não conseguia: que gratidão é o escudo mais poderoso que existe.

Não é um escudo de aço ou de poder. É um escudo da frequência.

Quando você agradece — genuinamente agradece — você muda sua vibração. Você para de irradiar medo e desamparo. Você começa a irradiar reconhecimento, abundância e confiança. E é essa mudança de frequência que atrai proteção verdadeira. Não proteção de fora para dentro, mas proteção que vem de dentro para fora — uma energia tão elevada que os males não conseguem se aproximar.

Nos dias seguintes àquele sussurro, comecei a experimentar.

Acordava e, antes de qualquer coisa, agradecia. Agradecia pelos meus olhos que viam, pelos meus ouvidos que ouviam, pelas mãos que podiam trabalhar. Agradecia pela cama em que dormi, pela comida que teria, pelas pessoas que me amam. Agradecia até pelos desafios, porque havia aprendido que dificuldades são mestres disfarçados de obstáculos.

E algo estranho começou a acontecer.

As preocupações não desapareceram da noite para o dia — a vida continuava oferecendo seus desafios. Mas minha relação com essas preocupações mudou radicalmente. Eu ainda tinha medos, mas eles já não me paralisavam. Eu ainda enfrentava dificuldades, mas elas já não me consumiam. Era como se a gratidão criasse um escudo invisível que filtrasse as energias negativas, deixando passar apenas o que eu realmente precisava enfrentar para crescer.

Comecei a notar padrões. Dias em que eu acordava grato eram dias em que “coincidências” felizes aconteciam — uma oportunidade inesperada, uma conversa que muda perspectivas, um encontro que parecia estar predestinado. Dias em que eu acordava reclamando, preocupado, focado no que faltava eram dias em que tudo parecia conspirar contra mim.

Era espiritual.

A Lei do Retorno operando em tempo real. Minha frequência determinando minha realidade. Minha atitude atraindo circunstâncias que ressonavam com ela.

E o Pai Joaquim das Matas, naquele sussurro sagrado, havia me dado a chave.

O Significado Profundo daquela Mensagem

Hoje, anos depois, quando penso naquelas seis palavras — “É preciso Gratidão para ter Proteção” — entendo que elas encerram uma filosofia completa de vida.

A gratidão não é um luxo espiritual para quem já tem tudo. É uma ferramenta de sobrevivência para quem enfrenta tempestades. É especialmente poderosa para aqueles que conhecem o desamparo, porque quem já foi desprotegido sabe reconhecer o valor de cada proteção recebida.

O Pai Joaquim, como tantos pretos-velhos, é um espírito que viveu escravidão. Viveu um sofrimento que eu, em meus piores dias, não consigo nem imaginar adequadamente. E apesar disso — talvez por causa disso — ele carrega uma sabedoria que transcende toda amargura. Ele aprendeu que gratidão é um ato divino.

Quando você agradece apesar das dificuldades, você recusa-se a ser consumido por elas. Quando você reconhece as bênçãos mesmo em meio à crise, você recupera seu poder. Quando você cultiva gratidão, você se torna alguém que a vida protege, porque você é alguém que celebra a vida.

A proteção, então, não vem de fora.

Vem de dentro. É radiação de um coração que sabe reconhecer o seu valor. É luz que brilha em alguém que escolheu não viver na amargura.

A Umbanda Como Escola de Vida

Uma década dentro da Umbanda me ensinaram que essa religião é muito mais do que rituais e entidades. É uma escola completa de vida. É um sistema de sabedoria que nos ensina a nos relacionarmos melhor com nós mesmos, com as outras pessoas, e com as forças invisíveis que nos cercam.

O Pai Joaquim das Matas, naquele único sussurro, me resumiu em seis palavras lições que eu levaria anos para aprofundar:

  • Sobre Responsabilidade: A proteção não é um direito automático. Você precisa criar condições para recebê-la.
  • Sobre Frequência: Sua atitude é um transmissor espiritual. O que você transmite retorna.
  • Sobre Aprendizado: A vida não é algo que nos acontece. É algo que copilotamos através de nossas escolhas.
  • Sobre Amor: Gratidão é um ato de amor. É dizer ao universo, aos Orixás, a Deus: “Eu reconheço o cuidado de vocês comigo.”

E por trás de todas essas lições, há uma verdade ainda maior: que você nunca está sozinho. Que existem forças de luz — ancestrais como o Pai Joaquim, Guias poderosos, o próprio Criador — trabalhando constantemente por seu bem e pelo justo. Mas eles só podem proteger aquele que reconhece a gratidão espontânea por recebê-la.

A Umbanda me ensinou a viver melhor. Me ensinou a entender que pessoas diferentes têm histórias diferentes, feridas diferentes, caminhos espirituais diferentes. Me ensinou que tudo que vai volta, então eu melhor tenha cuidado com o que envio para o mundo. Me ensinou que a caridade desinteressada é a moeda mais valiosa do universo.

A vida não ficou mais fácil. Mas ficou mais sábia. E há uma proteção em viver com sabedoria que nenhuma coragem ou maldade no mundo consegue replicar.

Que o Pai Joaquim das Matas, e todos os pretos-velhos que nos guardam, continuem sussurrando suas sabedorias em nossos ouvidos. Que aprendamos, finalmente, que proteção começa com gratidão.

* Pai Lucas de Xangô é Sacerdote e Diretor da FENARC ( Federação Espiritualista Nacional Afro-Religiosa e Cultural),escritor e ativista da valorização das religiões de matriz africana no Rio Grande do Sul.

Pai Lucas de Xangô
Pai Lucas de Xangô
Sacerdote do C.E.U Reino de Xangô & Jurema, Diretor do Departamento da Natureza & Sustentabilidade da FENARC, militante ambiental e defensor das religiões de matriz africana no RS.

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