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quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Retângulo luminoso

A rotina da maior parte das pessoas cabe em uma sequência simples, quase infantil, e justamente por isso tão perturbadora. Acordar e tocar a tela do celular antes mesmo de tocar o chão. Trabalhar diante de outra tela. Descansar diante de uma terceira. Voltar à tela pequena, portátil, íntima. Dormir. Se isso não causa espanto, talvez seja porque o espanto já foi absorvido pela luz azul.

No Brasil, essa rotina não é exceção, é regra. Dados do Comitê Gestor da Internet indicam que mais de 80% da população está conectada diariamente, sobretudo pelo telefone celular. O brasileiro figura entre os povos que passam mais tempo diante de telas no mundo, frequentemente ultrapassando oito horas por dia. Não se trata apenas de trabalho ou estudo, mas da própria organização da vida cotidiana.

O que deveria causar temor não é a tecnologia em si, mas a naturalização absoluta do excesso. A tela deixou de ser ferramenta para se tornar ambiente. É nela que se trabalha, se ama, se informa, se diverte e, cada vez mais, se constrói a própria identidade. A experiência direta do mundo vai sendo substituída por sua versão filtrada, enquadrada e incessantemente atualizada.

Machado de Assis já intuía esse fascínio pela aparência e pela validação social. Em Memórias Póstumas de Brás Cubas, a crítica à vaidade humana atravessa a obra com ironia fina. Hoje, essa vaidade encontra nas redes sociais um palco permanente, onde a existência parece depender do olhar do outro, agora medido em curtidas, visualizações e seguidores.

Carlos Drummond de Andrade alertava para o risco de atravessar o mundo sem realmente habitá-lo. No poema “O homem: as viagens”, a travessia física não garante experiência verdadeira. Na contemporaneidade, viajamos menos com o corpo e mais com o dedo que desliza pela tela. Conhecemos imagens do mundo inteiro, mas ignoramos o silêncio de um fim de tarde ou a conversa despretensiosa na calçada.

Os efeitos desse modo de vida já aparecem nos dados da realidade brasileira. Crescem os relatos de ansiedade, insônia e dificuldade de concentração, fenômenos observados por estudos nas áreas da saúde e da educação. Professores lidam com salas cada vez mais conectadas e cada vez menos atentas. Famílias disputam atenção com algoritmos que aprendem hábitos, desejos e fragilidades com precisão cirúrgica.

A literatura estrangeira também oferece lentes para compreender esse cenário. George Orwell temia uma sociedade controlada pela vigilância constante. Aldous Huxley, em Admirável Mundo Novo, foi ainda mais perspicaz ao imaginar um mundo dominado pelo entretenimento e pela distração contínua. Não somos apenas vigiados, somos sedados por estímulos permanentes.

O filósofo Byung-Chul Han descreve a sociedade do cansaço, marcada pelo excesso de informação e pela autoexploração. No Brasil, país historicamente associado à convivência e à presença física, cresce o paradoxo de pessoas juntas em silêncio, cada uma absorta em sua própria tela. A conexão digital avança enquanto a atenção humana se fragmenta.

Não se trata de demonizar a tecnologia, que trouxe ganhos reais e ampliou vozes historicamente silenciadas. O problema surge quando não há pausa, quando o olhar não descansa, quando o mundo precisa caber em um retângulo luminoso para existir. Esquece-se que o corpo também pensa, que o tempo precisa de intervalos, que o tédio é fértil.

Talvez o mais assustador dessa rotina seja sua invisibilidade. Ela se repete todos os dias sem ser questionada. Acordar, tela. Trabalhar, tela. Descansar, tela. Dormir. E assim os dias passam, rápidos e suaves, até que um dia percebemos que estivemos presentes em tudo, menos em nós mesmos. Assustador não é usar telas. Assustador é não conseguir mais desligá-las.

Wenilson Salasar de Santana
Wenilson Salasar de Santana
Professor de leitura e escrita. Atleta no tempo livre. Produz ensaios literários em forma de conto, poema e crônica reflexiva, articulando linguagem, experiência e crítica do cotidiano.

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