A pesquisa histórica contemporânea tem insistido em um ponto desconfortável para leituras simplificadas do passado bíblico: Israel e Judá nem sempre foram a mesma coisa, nem compartilharam desde o início as mesmas crenças. As evidências sugerem que o antigo Israel se formou como um grupo social inserido no universo cultural de Canaã, herdando dele práticas, símbolos e também divindades. Seu próprio nome indica essa origem: Israel remete ao deus cananeu El, figura central de um panteão politeísta.
Nesse cenário inicial, Javé (ou Yahweh) não surge como protagonista. Ao que tudo indica, trata-se de uma divindade de fora, cujo culto se desenvolveu nas regiões de Edom e Midiã. Só mais tarde — provavelmente entre os séculos X e IX a.C. — Javé é incorporado à experiência religiosa israelita. Primeiro, como um deus entre outros; depois, progressivamente, identificado ao próprio El.
Esse processo de assimilação é decisivo. Dizer que, em seus primórdios, Israel cultuava El não significa afirmar que cultuava El além de Javé, mas que ainda não cultuava Javé. Com o tempo, as fronteiras entre as duas divindades se diluem, até que El e Yahweh passam a ser entendidos como uma única figura. Textos bíblicos preservam vestígios dessa transição. Em Deuteronômio 32, por exemplo, o “Altíssimo” (Elyon) aparece distribuindo as nações entre os deuses, enquanto Yahweh recebe Israel como sua herança — sinal de uma hierarquia divina ainda em construção.
O pano de fundo é o panteão cananeu, concebido como um grande clã familiar. El ocupa o topo, ao lado de Aserá, a deusa-mãe. Abaixo deles estão divindades ligadas às forças da natureza e da vida social: Baal, senhor da tempestade e da fertilidade; Anate, associada à guerra e ao amor; Yam, o mar; Mot, a morte; e Shemesh, o sol. Ao longo dos séculos, o culto a Baal e a outros deuses locais disputou espaço até que, no contexto israelita, Javé se impôs e acabou absorvendo os atributos de El, abrindo caminho para o monoteísmo posterior.
Trazer essa discussão ao presente, em tempos de combate à intolerância religiosa, não é tarefa simples. Questionar a origem histórica de uma divindade central às grandes religiões monoteístas pode soar provocativo para muitos fiéis. Ainda assim, ignorar esse percurso e, a partir disso, demonizar o sagrado alheio como “falso” é esquecer que a própria fé nasceu de encontros, fusões e disputas culturais. No Brasil de hoje, onde religiões de matriz africana seguem sendo as maiores vítimas de intolerância, essa reflexão é especialmente necessária.
Talvez valha encerrar com uma provocação filosófica. Parafraseando Nietzsche, em Assim Falava Zaratustra: os deuses morreram de rir no dia em que um deles afirmou ser o único. A história, afinal, raramente é tão exclusiva quanto gostaríamos que fosse.


