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sábado, 24 de janeiro de 2026

Oráculo do boteco digital

Tenho observado um fenômeno curioso na modernidade: redes sociais e plataformas de áudio assumiram o papel de novas praças públicas, onde vozes se elevam com autoridade quase sagrada, mesmo quando o conhecimento é superficial.

Entre tais, destaca-se o perfil que se apresenta como dono da verdade absoluta, navegando entre temas com a segurança de quem nunca estudou, mas finge ter lido todos os livros do mundo. Não é apenas uma figura caricata; é a personificação da arrogância informacional, capaz de transformar qualquer conversa em monólogo performático. Em programas de debate online, por exemplo, é comum ver esse tipo de perfil interromper especialistas e apresentar opiniões sobre economia ou saúde pública sem qualquer fundamentação.

A dinâmica é familiar para quem acompanha debates sobre política e economia no país. Basta entrar em um grupo de WhatsApp ou em uma live de análise econômica para perceber como opiniões destituídas de dados consistentes são apresentadas como diagnósticos precisos. No contexto das últimas eleições, muitos eleitores foram influenciados por vídeos e áudios que distorciam indicadores econômicos e estatísticas de segurança, ilustrando como a convicção performática pode moldar percepções e decisões.

Religião, por exemplo, é tema recorrente nessa performance de onisciência. Há quem fale de dogmas, rituais e papas com a naturalidade de quem possui acesso direto ao Vaticano, confundindo fé, tradição e interpretação própria com conhecimento acadêmico. Durante debates sobre liberdade religiosa, esse tipo de postura levou a interpretações equivocadas de textos sagrados em transmissões ao vivo, gerando polarização e desinformação entre comunidades de fé que buscavam apenas orientação.

A esfera social também sofre impactos visíveis. Discussões sobre direitos humanos, feminismo e políticas públicas frequentemente se tornam arenas de afirmações categóricas sem base em pesquisas ou dados. Em conselhos municipais e audiências públicas, observou-se a circulação de argumentos simplistas sobre igualdade de gênero ou programas de assistência social, desconsiderando estudos e estatísticas, resultando em decisões que podem prejudicar grupos vulneráveis, como mulheres em situação de violência ou famílias de baixa renda.

O efeito é amplificado pela cultura do entretenimento e do espetáculo. Cada opinião é performada como produto, cada insight como exclusividade de um guru instantâneo. Influenciadores que comentam sobre cinema e literatura, por exemplo, muitas vezes interpretam filmes complexos ou obras literárias sem contexto, promovendo leituras superficiais que viralizam nas redes, reforçando a ideia de que a convicção aparente vale mais que a análise crítica.

A contrapartida possível é a educação crítica. Conhecimento sólido e análise fundamentada tornam-se ferramentas indispensáveis para filtrar discursos vazios. Escolas, universidades e projetos de mídia independente podem ensinar leitores e ouvintes a checar fontes, questionar afirmações e diferenciar opinião de fato, transformando cada debate público em oportunidade de reflexão consciente e diminuindo a influência de discursos vazios sobre decisões individuais e coletivas.

Considero imperativo reconhecermos que, no contexto brasileiro, a confiança cega em especialistas autoproclamados pode ter consequências reais e imediatas. Desde a propagação de teorias econômicas equivocadas até políticas públicas mal fundamentadas, o país paga o preço da desinformação camuflada de erudição.

Ação, nessa lógica, significa questionar, pesquisar e exigir rigor na informação, transformando cada interação virtual em oportunidade de reflexão consciente e resistência contra a superficialidade que se disfarça de sabedoria.

Wenilson Salasar de Santana
Wenilson Salasar de Santana
Professor de leitura e escrita. Atleta no tempo livre. Produz ensaios literários em forma de conto, poema e crônica reflexiva, articulando linguagem, experiência e crítica do cotidiano.

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