O tribunal ficava no centro da cidade, um prédio de mármore e vidros que refletia o sol como se nada de errado existisse além daquelas paredes. No bairro de Lucas, a realidade era outra: ruas esburacadas, escolas sem merenda, crianças vendendo refrigerantes para ajudar em casa. Ali, a justiça era uma abstração distante, falida, seletiva.
Lucas caminhava devagar, lembrando-se da audiência marcada para o fim do mês. Seu irmão havia sido preso por furtar uma bicicleta — algo que, para qualquer garoto da periferia, parecia pequeno demais para ser notado. Mas para eles, que não tinham advogado poderoso, o sistema era implacável. Enquanto isso, empresários desonestos continuavam com suas contas milionárias, sem nunca ver a cor do tribunal. A lei, pensou Lucas, parecia uma marionete que obedecia apenas aos que tinham dinheiro e influência.
Naquele fim de tarde, ele atravessava o beco onde seu irmão vendia balas para sobreviver. Dois garotos maiores empurravam um menino menor, rindo enquanto derrubavam a mercadoria. Lucas parou, sentindo o mesmo peso que carregava desde que o sistema esmagara sua família. Não era apenas o medo do beco; era o peso da injustiça institucional, que ensinava a todos que a lei protege os ricos e pune os pobres.
Ele interveio, firme, sem esperar aplausos, afastando os agressores. O garoto olhou para ele com olhos que pediam mais do que proteção momentânea — pediam justiça de verdade. Lucas sentiu a frustração misturada com uma clareza brutal: a justiça real não existia fora de ações individuais. Tribunais, juízes, promotores — tudo aquilo era teatro, seleto, corrupto, voltado a preservar privilégios. O sistema não corrige erros, apenas reforça desigualdades.
Nos dias seguintes, Lucas percebeu pequenas reações ao seu gesto. Um vizinho começou a denunciar abusos na escola, outro questionou a atuação policial que nunca chegava quando o bairro precisava. Mas sabia que eram ações ínfimas diante da máquina institucional. A lei, naquele país, raramente se importava com quem não podia pagar, com quem não tinha influência.
No tribunal, o irmão de Lucas esperava o julgamento. Advogado público, processos atrasados, decisões proteladas. Lucas sentou-se no banco da plateia, observando o juiz olhar para ele e para os documentos como se decidisse o destino de vidas sem realmente enxergá-las. Foi então que compreendeu, com clareza dolorosa, que a única justiça possível — a que realmente funcionava — era feita por quem se dispusesse a agir, mesmo que pequeno, mesmo que arriscado, mesmo que quase inútil diante do sistema.
Na saída, o irmão preso sorria de canto, aliviado por uma decisão tardia que não mudava nada da desigualdade que os cercava. Lucas respirou fundo, sentindo o peso de uma responsabilidade que a lei nunca assumiria por eles. Justiça institucional? Para eles, uma farsa. Justiça verdadeira? Um ato humano, violento ou silencioso, feito quando ninguém observa. E, por mais doloroso que fosse, apenas aqueles dispostos a agir carregavam a chance de mudar alguma coisa.


