No fundão da sala de aula, Ana, Marcelo e Antônio choravam de tanto rir das peripécias que eles aprontavam durante as aulas no ensino médio daquela escola para lá de rigorosa.
Da coca-cola misturada ao destilado, às bolas gigantes de papéis de caderno jogadas nos colegas de turma, eles eram umas verdadeiras pestes.
Sem limites, eles faziam algazarras em todas as aulas, menos nas aulas de Administração de Verônica, uma professora para lá de caxias que tinha como chavão “Não confunda liberdade com libertinagem”. Esse era o lema dela e ela o terror daquele trio sem limites.
Antônio, o mais reservado, metido a durão, era uma flor de pessoa. Simples e discreto, tentava ocultar sua participação naquele grupo, mas, todos suspeitavam que ele era o cabeça daquele trio fantástico; Marcelo, conhecido como Nariz de Bruxa, era comedido e em vários momentos pegávamos ele compondo alguma música ou dedilhando seu estimado violão; Ana, que parecia ser uma menina contida, era uma capeta em forma de gente: perturbava, como podia, suas amigas de turma, arrancando delas gargalhadas e gritos de sustos em situações inusitadas. Juntos, eles formavam um trio elétrico ligado nos duzentos volts.
Mas, apesar de todas as farras em sala de aula, durante os intervalos, eles acalmavam seus corações como se aquele momento fosse de pura liberdade, o que não era, afinal de contas o que não faltava naquela escola eram os monitores de plantão que observavam atentamente a cada detalhe dos comportamentos dos alunos e, mais ainda, daquele turminha.
Naquela época, o bullying era algo pra lá de distante. Os adolescentes faziam chacotas uns com os outros e não havia repreensão ou campanhas educativas como temos nos dias atuais. A zoeira corria frouxo e quando Ana e companhia estavam reunidos, não era diferente.
Alguns colegas de classe ensaiavam ficar com raiva deles, mas logo aquele clima era dissipado com outra brincadeira e estava tudo certo.
Até que em uma aula de Língua Portuguesa eles conheceram as figuras de linguagem e, voilà, surgiu a ideia do trio em fazer um jornalzinho que foi batizado de “Ali, Depois”, onde eles começaram a canalizar suas peripécias para aquela publicação que foi sucesso absoluto na escola.
Usando metonímias, paráfrases, antíteses, eles brincavam com as figuras de linguagem utilizando seus colegas de turma como exemplos para cada situação.
Ana era a responsável pela sistematização, revisão e impressão daquele jornalzinho que foi criado cuidadosamente pelos três e distribuído a todos da turma em várias edições.
Eles se divertiram muito com a nova proposta de zoar com os colegas que não se importavam em ter seus nomes citados nas matérias dos jornaizinhos e um verdadeiro frisson tomavam conta dos três ao ver cada colega de classe folheando, lendo e dando gargalhadas das matérias escolhidas a dedo por cada um do trio.
Nos intervalos, o jornal corria de mão e mão e boca em boca, enquanto Marcelo, com seu inseparável violão, tocava as músicas do grupo Pink Floyd e fazia os casaizinhos se entreolharem com promessas de namoro.
Há quem pensasse que aquele trio não teria futuro, uma vez que viviam de recuperação e não demonstravam comprometimento com os estudos, mas para a surpresa de muitos, eles deslancharam na vida: Ana passou num concurso público e virou escritora; Marcelo virou músico reconhecido nas noites de Brasília e Antônio tornou-se Coronel da Polícia Militar e discente de uma nobre instituição de ensino onde Ana foi sua aluna.
Todos encaminhados, vez ou outra se esbarravam pela vida, seja em bares ou faculdades e a conexão que tiveram há anos era a mesma, trazendo lembranças longínquas que aninhavam seus corações.
As lembranças deixadas por aquele trio se perpetuam até hoje nas gavetas de Ana, onde, costumeiramente, folheia aqueles jornaizinhos velhos cheios de recordações de uma época para lá de extraordinária trazendo nostalgia e vontade de relembrar o tempo em que foi muito feliz por ter tido pessoas tão incríveis em sua vida.


