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sábado, 24 de janeiro de 2026

O trabalho silencioso do pensamento

Intelecto não é medalha exibida em debate nem efeito colateral de falar difícil. Ele se constrói na capacidade de absorver novas informações dentro dos próprios esquemas de compreensão, de aceitar críticas sem reagir como se fossem ataques pessoais e de incorporar essas tensões ao amadurecimento do pensamento. Pensar exige disposição para rever certezas, algo bem mais trabalhoso do que repetir convicções prontas.

Na experiência brasileira, essa confusão entre informação e intelecto é recorrente. A expansão do acesso ao ensino superior e à informação digital ampliou o repertório disponível, mas não garantiu, por si só, pensamento crítico. Saber citar autores, repetir dados ou mencionar livros clássicos tornou-se, em muitos espaços, um atalho para autoridade simbólica. O problema é que erudição aparente não substitui compreensão profunda, nem leitura isolada forma consciência histórica ou social.

A universidade brasileira, por exemplo, sempre distinguiu informação de formação. As melhores tradições acadêmicas não valorizam apenas o acúmulo de referências, mas a capacidade de dialogar com elas, tensioná-las e contextualizá-las. Produzir conhecimento exige confronto de ideias, revisão de hipóteses e abertura ao erro. Sem isso, o discurso vira ornamento, não pensamento.

Fora do ambiente acadêmico, essa lógica se agrava. No debate público, fatos objetivos são frequentemente usados como armas retóricas, não como pontos de partida para reflexão. Cita-se estatística sem método, trecho de livro sem contexto, conceito sem compreensão histórica. O resultado é um debate ruidoso, em que vencer a discussão importa mais do que entender o problema. Intelecto, nesse cenário, é confundido com desempenho.

Há também uma resistência cultural à crítica que empobrece o pensamento. Em um país marcado por hierarquias rígidas e personalismo, questionar ideias costuma ser interpretado como desrespeito. Essa postura bloqueia o aprendizado, porque transforma qualquer discordância em ameaça. Quem não suporta ser confrontado não amplia nuance, apenas protege o próprio ego.

Pensar com profundidade exige humildade intelectual, qualidade rara em tempos de exposição constante. É reconhecer que todo esquema de compreensão é provisório e que novas informações podem exigir ajustes, revisões e até rupturas. Esse processo não é confortável, mas é nele que o pensamento amadurece e deixa de ser repetição.

O verdadeiro intelecto se revela menos na afirmação segura e mais na escuta atenta, menos na citação rápida e mais na articulação cuidadosa. Ele aparece quando alguém consegue sustentar complexidade sem simplificar o mundo para caber numa frase de efeito. Em tempos de excesso de informação, pensar bem tornou-se menos um dom e mais um trabalho contínuo.

Wenilson Salasar de Santana
Wenilson Salasar de Santana
Professor de leitura e escrita. Atleta no tempo livre. Produz ensaios literários em forma de conto, poema e crônica reflexiva, articulando linguagem, experiência e crítica do cotidiano.

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