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sábado, 24 de janeiro de 2026

O tempo que corre ao lado

Correr diariamente com meu cachorro é uma terapia. Não uso a palavra como metáfora: trata-se de um fato concreto, quase clínico. O corpo se move, a respiração encontra um ritmo, e algo silencioso dentro de mim se reorganiza. Talvez porque, ao correr com ele, eu não esteja apenas avançando pelo espaço — estou aprendendo a habitar melhor o tempo.

Scooby é um Sharpei. Um cachorro extraordinário, que adotei há três anos com o coração alinhado ao da minha esposa. Foi, no sentido mais literal da palavra, um resgate. Soube que ele havia sido abandonado em uma casa sem cuidado algum: dias amarrado, sem alimentação adequada, sem repouso, latindo e chorando diante da própria antiga moradia. Sede, fome, espera. Uma espera que não tinha promessa.

Nunca procurei entender as razões de quem fez isso. Há violências que não pedem interpretação, apenas nome. Para mim, trata-se de perversidade — dessas que revelam o pior da espécie humana e que deveriam ser tratadas como crime grave, porque atentam contra algo essencial: a dignidade do viver.

O que posso dizer sobre Scooby agora? Que ele é um amigo verdadeiro. Fiel sem esforço, afetuoso sem cálculo, inteligente sem ostentação. Aprende rápido, adapta-se com facilidade à minha rotina e, sobretudo, ensina sem querer ensinar. Todos os dias me espera. Todos os dias me recebe pulando no portão quando volto do trabalho, como se o tempo da ausência nunca tivesse existido.

Nossas corridas e caminhadas, quase sempre no fim da tarde, são exercícios de convivência. Aprendemos sobre ritmo, limite, atenção. Ele é forte, veloz, às vezes afoito. Se não o guio, entra em lugares perigosos — talvez porque, ao sair para correr comigo, experimente uma sensação rara: liberdade. A mesma que eu, adulto domesticado pelo relógio, também reencontro ali.

Os cães parecem traduzir algo que nós, humanos, complicamos demais: o amor em estado puro. Um amor que não oscila conforme o humor, que não se rende ao tempo, que não cobra garantias. O afeto deles não é posse, é presença. Não é dependência, é entrega. Ter o amor de Scooby não me faz dono de nada — sinto-me responsável. É uma honra tê-lo como membro da família.

Não encontro palavras suficientes para explicar a realização que é viver com ele sendo exatamente quem é. Sei que minha esposa sente o mesmo, embora Scooby seja particularmente apegado a mim. Ainda assim, o amor que ela recebe dele é tão inteiro quanto o meu. Amor, afinal, não se divide — se expande.

Se eu pudesse apontar uma única injustiça nessa convivência, seria esta: seres tão íntegros não viverem para sempre. Talvez por isso nos ensinem tanto em tão pouco tempo. Eles não estão aqui para durar — estão aqui para nos lembrar. Do cuidado. Da lealdade. Do agora.

Enquanto corro ao lado de Scooby, entendo que a vida não pede pressa, mas presença. E que, às vezes, aprender a viver melhor começa com algo simples: seguir em frente, passo a passo, ao lado de quem nunca desistiu de amar — mesmo quando tudo indicava que deveria.

Wenilson Salasar de Santana
Wenilson Salasar de Santana
Professor de leitura e escrita. Atleta no tempo livre. Produz ensaios literários em forma de conto, poema e crônica reflexiva, articulando linguagem, experiência e crítica do cotidiano.

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