Piada racista, xenofóbica, homofóbica ou qualquer outra forma de preconceito não é brincadeira inocente nem “liberdade de expressão”. É pedra arremessada todos os dias contra gente de carne e osso, capaz de empurrar pessoas para a depressão, para o silêncio e, em casos extremos, para a desistência da própria vida. É a prova cruel de que, numa sociedade desigual, o riso costuma ser construído sobre a dor alheia. Um projeto verdadeiramente progressista começa quando se entende que a palavra também mata e que cuidar da dignidade humana deve ser tão essencial quanto cuidar do pão na mesa.
No Brasil, essa dinâmica não é abstrata nem rara. A linguagem ofensiva está profundamente enraizada em formas de humor que atravessam as gerações e reforçam hierarquias sociais já historicamente estabelecidas. Pesquisadores destacam que o “racismo recreativo”, termo que descreve o uso de humor para naturalizar e reforçar estereótipos raciais e sociais aparentemente inofensivos, é parte integrante da nossa cultura do riso, associando características de pessoas negras e indígenas a algo negativo ou inferior para efeito cômico.
A amplificação desse fenômeno tem consequências concretas. Pesquisas recentes revelam que a discriminação racial continua sendo uma experiência cotidiana para uma grande parte da população brasileira. Um estudo divulgado em 2025 mostrou que raça é o principal fator de discriminação no país, com 84 % dos entrevistados que se identificaram como pretos relatando ter sofrido preconceito. Outro levantamento indica que a maioria dos brasileiros — cerca de 81 % — reconhece o Brasil como um país racista, embora apenas uma minoria admita comportamentos próprios discriminatórios.
Essas percepções coincidem com dados de organizações de direitos humanos que colocam milhões de ocorrências de injúrias e agressões em contextos raciais, sexuais e regionais como parte da violência simbólica cotidiana.
Esse padrão não se limita a conversas entre conhecidos; ele aparece na mídia e na esfera pública. Figuras de destaque às vezes reproduzem ou defendem falas e posturas discriminatórias sem repercussão imediata, e são responsabilizadas apenas tardiamente. Em 2024, um apresentador de televisão foi condenado por expressões consideradas homofóbicas e racistas, com a Justiça determinando pena de prisão substituída por prestação de serviços por declarações que associavam grupos marginalizados a crimes ou comportamentos repulsivos.
Em outro caso recente, a Justiça brasileira aplicou uma das penas mais duras já vistas a uma influenciadora que proferiu insultos racistas contra uma criança de quatro anos, num sinal de que discursos discriminatórios podem, sim, ser tratados como ofensas graves contra a dignidade humana.
O esporte, reflexo de muitas tensões sociais, também mostra esse cenário. No futebol, por exemplo, as denúncias de injúria racial aumentaram expressivamente em 2023, com o relatório anual registrando quase 40 % mais casos do que no ano anterior — fenômeno que inclui ofensas verbais tanto dentro quanto fora dos estádios. Tais episódios não são trivialidades; para quem os sofre, são experiências de humilhação e exclusão que se somam a um histórico de desigualdade que ultrapassa o campo esportivo.
O impacto desse tipo de humor comparado com discursos discriminatórios é reforçado por estudos em psicologia social: mesmo quando a intenção de quem faz a “brincadeira” é minimizar ou negar a gravidade, o efeito sobre as pessoas que pertencem a grupos alvo é de reforçar sentimentos de marginalização e insegurança, reduzindo bem-estar e sensação de pertencimento social. Argumentar que isso é “só humor” ignora a assimetria de poder e o contexto histórico de exclusão. Nem todas as vozes ocupam o mesmo lugar na sociedade para rir de si mesmas sem custo. A liberdade de expressão não é um direito absoluto quando colide com a garantia de igualdade e dignidade previstas constitucionalmente, e a legislação brasileira trata crimes de racismo, homofobia e outras discriminações como ofensas penais, passíveis de responsabilização.
Cuidar da dignidade humana exige reconhecer que a linguagem molda relações de poder e que a normalização do riso à custa da dor do outro não é irrelevante. Não se trata de restringir criatividade ou debate, mas de questionar práticas culturais que perpetuam violência simbólica. Uma sociedade mais justa é aquela em que a palavra funciona como ponte, não como arma, e em que o humor é capaz de rir sem amplificar desigualdades que já são, por si mesmas, um peso concreto na vida de milhões.


