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sábado, 24 de janeiro de 2026

O preço da ilusão do mérito

Os resultados do ENAMED 2025 expõem algo que muitos preferiam manter fora do debate: ensino superior ruim não é exclusividade de quem tem baixa renda. Há estudantes pagando mensalidades elevadas, em cursos privados localizados tanto em capitais quanto em cidades médias do interior, obtendo desempenho mínimo (1 e 2) em avaliações nacionais. Isso não é exceção pontual, mas um padrão já observado também em ciclos anteriores do ENADE e do Índice Geral de Cursos, nos quais uma parcela expressiva das graduações privadas recebe conceitos baixos, inclusive aquelas com mensalidades incompatíveis com a qualidade entregue.

Esse dado desmonta a narrativa de que problemas de desempenho acadêmico decorrem do perfil social do estudante. O fator determinante é o modelo institucional. A expansão acelerada do ensino superior privado, especialmente nas últimas duas décadas, priorizou volume de matrículas, redução de custos e padronização curricular. Em diferentes regiões, multiplicaram-se cursos com infraestrutura limitada, carga horária mínima e pouca integração entre ensino, pesquisa e prática profissional. O estudante de alta renda paga caro por uma promessa que não se cumpre. O estudante de baixa renda, na maioria das vezes, sequer tem acesso a alternativas de qualidade.

É nesse cenário que o papel das universidades públicas (maioria liderou o exame com notas entre 4 e 5) se torna central. Dados consolidados do próprio sistema de avaliação mostram que elas concentram a maior parte dos cursos com conceitos elevados, além de responderem pela quase totalidade da produção científica nacional. Em todas as regiões, são essas instituições que mantêm hospitais universitários, laboratórios de referência e projetos de extensão que articulam formação técnica e responsabilidade social. A qualidade ali não está associada ao preço, mas a um projeto acadêmico consistente e regulado.

Por isso, políticas de cotas raciais e sociais não podem ser analisadas a partir de resultados agregados de exames nacionais como se fossem variável explicativa do desempenho institucional. Estudos baseados em dados do ENADE e em acompanhamentos internos de universidades federais mostram que estudantes cotistas apresentam desempenho acadêmico semelhante ao de não cotistas ao longo do curso e taxas de evasão compatíveis. Não há evidência empírica de que a adoção de cotas reduza a qualidade dos cursos. O que existe é a correção parcial de desigualdades de acesso acumuladas ao longo da educação básica.

Quando se observa a composição social do ensino superior, os números são claros: antes das políticas afirmativas, cursos de maior prestígio concentravam majoritariamente estudantes oriundos de escolas privadas e famílias de alta renda. A ampliação do acesso por meio de cotas não reduziu o rigor acadêmico, mas diversificou o perfil discente sem alterar os critérios de avaliação e progressão. O mérito deixou de ser filtrado apenas pelo ponto de partida e passou a ser medido pela permanência e pelo desempenho dentro de instituições de excelência.

Quando um estudante de origem popular ocupa uma vaga em um curso altamente qualificado, não há perda coletiva. Há ganho mensurável. Ganha a universidade, que passa a refletir melhor a sociedade que a financia. Ganha a profissão, que forma quadros competentes em ambientes de alto rigor técnico. Ganha o sistema educacional, que deixa de confundir preço com qualidade. Os dados não sustentam a ideia de que cotas explicam resultados ruins; eles apontam, de forma consistente, para problemas estruturais de oferta educacional.

O ENAMED, assim como outras avaliações oficiais, reforça uma constatação objetiva: pagar caro não é sinônimo de boa formação. Em contrapartida, investir em universidades públicas e garantir políticas de acesso baseadas em critérios sociais e raciais é uma estratégia comprovada de ampliação da qualidade com justiça. Não se trata de discurso moral, mas de leitura correta dos dados disponíveis.

Wenilson Salasar de Santana
Wenilson Salasar de Santana
Professor de leitura e escrita. Atleta no tempo livre. Produz ensaios literários em forma de conto, poema e crônica reflexiva, articulando linguagem, experiência e crítica do cotidiano.

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