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domingo, 25 de janeiro de 2026

O papel da fertilidade na Inseminação Artificial

A eficiência da inseminação artificial varia mais do que muitos pecuaristas imaginam. Mesmo com protocolos adequados e manejo bem conduzido, os resultados podem oscilar entre rebanhos e até mesmo entre lotes de fêmeas. Um dos principais fatores por trás dessa diferença está na fertilidade do sêmen utilizado, característica que vem ganhando espaço nas decisões de compra e se mostrando decisiva para o sucesso dos protocolos de reprodução.

De modo geral, a fertilidade pode ser entendida como a capacidade de o material genético inseminado efetivamente emprenhar as vacas e gerar bezerros com genética superior. Na prática, ela se reflete em dois indicadores centrais: a taxa de prenhez e as perdas gestacionais.

A taxa de prenhez indica a porcentagem de inseminações que resultam em gestação. Na média dos rebanhos brasileiros submetidos à inseminação artificial em tempo fixo (IATF), esse índice gira em torno de 50%. Em situações de menor fertilidade, a taxa pode cair para cerca de 40%. Já a escolha de touros mais férteis associado ao bom manejo (nutricional, sanitário, etc..) permite alcançar índices entre 60% e 65%, com impacto direto na eficiência e na rentabilidade do sistema.

As perdas gestacionais correspondem às vacas que emprenharam, mas perderam o bezerro ao longo da gestação. Embora mais difíceis de mensurar, estudos indicam perdas em torno de 7%, com maior incidência em novilhas do que em vacas adultas. Mesmo menos visível ou de difícil mensuração, esse fator também interfere nos resultados reprodutivos.

A importância da fertilidade fica ainda mais evidente quando se observa a variação dos resultados a campo, mesmo em sistemas bem manejados. A inclusão desse critério na escolha do sêmen tem se mostrado um caminho consistente para elevar os índices de prenhez e reduzir perdas ao longo do processo.

Na Embrapa Gado de Corte, o tema vem sendo estudado a partir de bases de dados robustas, coletadas diretamente no campo. Atualmente, são analisadas informações de aproximadamente 3.300 touros da raça Nelore, com o resultado de inseminações realizadas em diferentes sistemas produtivos. Esses dados possibilitam identificar diferenças consistentes de fertilidade entre os machos e auxiliam programas de classificação utilizados pelas centrais de genética, além de estudos voltados à identificação de fatores genéticos e de qualidade seminal associados ao sucesso da prenhez e às perdas gestacionais.

Os ganhos ocorrem no curto e no longo prazo. De forma imediata, a fertilidade superior resulta em mais prenhez por protocolo. Ao longo do tempo, essa característica passa a ser incorporada ao rebanho. Embora a herdabilidade da fertilidade seja relativamente baixa, em torno de 3%, ela contribui para a evolução genética quando considerada de forma contínua, associada a outras características avaliadas, como as DEPs (Diferenças Esperadas na Progênie).

Para o pecuarista, a fertilidade não deve ser o único critério de escolha do sêmen, mas precisa integrar o conjunto de fatores analisados, juntamente com outras características importantes, como o desempenho dos animais (ganho de peso a desmama, ao sobreano, AOL, etc). A busca por boa taxa de prenhez pode ser combinada com duas estratégias complementares: a utilização de touros com fertilidade já verificada pelas centrais, que oferecem maior previsibilidade nos resultados, e a diversificação com touros jovens, que costumam apresentar genética melhorada e sêmen mais acessível. Nesse caso, a recomendação é trabalhar com um maior número de touros jovens diferentes, reduzindo riscos e ampliando a base genética do rebanho.

Na prática, essas decisões devem estar associadas a bom manejo nutricional, sanitário e reprodutivo. Nas últimas décadas, a inseminação artificial se consolidou como uma das formas mais eficientes de aumentar a produtividade da pecuária brasileira, impulsionada pelo avanço das pesquisas, tecnologia e investimentos dos pecuaristas, com apoio de entidades como a ASBIA (Associação Brasileira de Inseminação Artificial). A experiência no campo mostra que dificilmente uma fazenda que adota a inseminação artificial volta atrás. É nessa direção que temos de caminhar para contribuir para o contínuo avanço produtivo da atividade.

Autor:

Ériklis Nogueira, Doutor em Ciências Veterinárias e pesquisador em Reprodução Animal da Embrapa Gado de Corte

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