Você se entristece porque percebe o descompasso. Não é apenas pela atitude em si, mas pelo que ela revela. Em situações corriqueiras — um retorno que não vem, um combinado ignorado, uma responsabilidade empurrada para depois — você sabe que teria agido diferente. Não por virtude extraordinária, mas por senso básico de compromisso.
No Brasil de hoje, observo que essa diferença pesa mais, porque o descuido virou rotina e a falta de consideração foi naturalizada.Vivemos num país onde o “depois a gente vê” se impôs como método.
Serviços mal prestados, promessas públicas vazias, relações pessoais sustentadas mais por conveniência do que por lealdade. O cidadão aprende cedo que cumprir o mínimo já é visto como excesso. Quem chega no horário, responde, se posiciona e sustenta a própria palavra passa a ser tratado como exigente demais, quase ingênuo. A tristeza nasce aí: no choque entre o que deveria ser comum e o que passou a ser raro.
Não se trata de idealismo. Trata-se de experiência. Quem paga impostos e recebe descaso, quem trabalha corretamente e vê o incompetente ser promovido, quem mantém vínculos enquanto o outro só aparece quando precisa — tudo isso ensina, à força, que nem todos jogam o mesmo jogo. O problema não é errar; é errar sem constrangimento algum. É falhar e seguir a vida como se nada estivesse em jogo, enquanto o prejuízo fica sempre com alguém mais consciente.
Por isso, aprender a ficar tranquilo, na medida do possível, não é se acomodar. É parar de desperdiçar energia tentando ensinar responsabilidade a quem não sente falta dela. É entender que nem toda relação comporta profundidade e que nem toda convivência merece investimento contínuo. No Brasil real, essa percepção é uma forma de sobrevivência emocional.
Reconhecer o lugar que você ocupa na vida das pessoas é um exercício que desmonta ilusões. Há quem o procure apenas quando precisa de algo, quem se aproxime enquanto é útil e se afaste quando a exigência aumenta. Saber disso não endurece — organiza. Ajusta expectativas, redefine limites e evita que você continue oferecendo presença onde só há ausência.
A lucidez dói menos que a esperança mal colocada. Entender que você faria diferente não é um peso moral, é um critério. Ele serve para escolher melhor onde ficar, com quem contar e até onde ir.
Num país marcado por improviso, desigualdade e irresponsabilidade estrutural, preservar a própria coerência é um ato silencioso de resistência, autoconhecimento e estabilidade.


