O vestiário estava quase vazio quando ele entrou. O cheiro de desinfetante ainda competia com o de suor antigo, impregnado nos azulejos. Era fim de tarde, fim de ano, fim de conversa. Ele largou a mochila no banco e ficou de pé, encarando o próprio reflexo no espelho rachado acima da pia.
Na televisão pequena, presa num canto alto da parede, o noticiário passava sem som. Ele reconheceu a imagem antes mesmo da legenda: mais uma mulher morta. O repórter gesticulava com gravidade, como quem já sabe o roteiro de cor. Ele não prestou atenção nos detalhes. Nunca prestava.
Ao seu lado, um homem mais jovem batia a porta do armário com força exagerada. Murmurou algo sobre “mulher que provoca”, riu sozinho e saiu. O riso ecoou por segundos a mais do que deveria.
Ele ficou.
Lembrou-se do pai dizendo que homem não pede desculpa por tudo. Do treinador gritando que chorar era coisa de quem não aguenta pressão. Lembrou-se da primeira vez em que sentiu vontade de abraçar um amigo e desistiu, por medo de parecer fraco. Pequenas renúncias, feitas sem alarde, como quem aprende uma regra invisível.
O espelho devolvia um rosto comum. Nenhuma brutalidade explícita. Nenhuma ameaça visível. Ainda assim, ele se perguntou em que momento aprendera a confundir firmeza com silêncio, controle com afeto, respeito com distância. Nunca batera em ninguém. Nunca levantara a voz. Mas também nunca interviu quando o riso veio errado, quando o comentário atravessou o limite, quando o incômodo pediu nome.
A imagem da televisão mudou. Outra notícia. Outra vida.
Ele lavou as mãos devagar, observando a água escorrer pelos dedos, levando sujeira, mas não memória. Pensou na filha, ainda pequena, aprendendo a nomear o mundo. Pensou nos meninos que cresciam aprendendo a negar tudo o que lembrasse cuidado. Pensou que ninguém ensina violência de uma vez — ela se aprende em doses mínimas, socialmente aceitas.
Ao sair, apagou a luz do vestiário. O espelho ficou no escuro.
No corredor, o mesmo riso voltou, agora distante. Ele hesitou por um instante, respirou fundo e seguiu adiante, sem saber ainda se iria falar — mas sabendo, pela primeira vez, que o silêncio também era uma escolha.


