21 C
São Paulo
quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

O dia que o abraço disse “fique!”

Era uma tarde de sábado de um dia chuvoso quando Franklin resolveu pedir a ajuda de um casal de amigos de longa data.

Seu peito estava destroçado e sua vida havia perdido o sentido depois que sua esposa Marta pediu o divórcio.

Franklin nunca teve olhos para outra mulher; sua vida era completamente voltada para ela e para suas filhas. Mas Franklin se perdeu no meio do caminho.

Entre uma cartada aqui, outra ali, ele mergulhou num mundo invisível onde a adrenalina era seu alimento diário.

A necessidade de sentir a adrenalina “só mais um pouquinho”, fez com que ele se perdesse e, quando se deu conta, sua linda esposa não estava mais lá esperando ele.

Olhando pelo retrovisor da vida, Franklin tinha consciência de que falhara ao dar asas ao desconhecido, ao imaginário, mas ele tinha esperança de que Marta poderia se arrepender da decisão de separar-se dele. Mas, o tempo foi passando e ela nunca voltou.

O tempo foi cruel com Franklin, pois com ele veio carregado de uma dor insuportável de perda que dilacerava o seu coração.

O gosto de fel na boca dele chegou ao seu limiar que quando ele se deu conta estava fazendo uma carta de despedida.

Tremendo e chorando copiosamente, escrevia com a alma sangrando, pedindo ao Universo que não se concretizasse aquele desabafo de dor e despedida.

Ao terminar de escrever aquela mensagem que era extraída de seu âmago, Franklin foi surpreendido pela presença de sua filha caçula que o fez voltar a si. Mas, naquele momento, mesmo sendo trazido de volta pela sua amada filha para repensar tudo o que acabara de escrever naquelas linhas,  ele estava resolvido a dar um fim naquela dor inexprimível. Franklin queria descansar de sua luta diária por sentir que não teria mais sua família ao seu lado e dobrando a carta, colocou na mochila de sua filha com a intenção de que Marta só a leria quando ele não estivesse mais nesse plano.

Ao deixar sua filha caçula na casa de Marta, Franklin chorou sangue por dentro. Sua alma estava devastada e ele não via saída para arrancar aquela dor que sentia. Até que ligou para seu grande amigo Caio. Intimamente pensou que ia se despedir dele também, mas algo o fez ir à casa desse amigo.

Ao chegar lá, Franklin foi recepcionado por Caio e Ana, esposa de Caio.

Caio sabia que Franklin não estava nada bem, mas nunca imaginava que ele estava no seu limite.

Sem saber da carta que Franklin havia escrito, Caio acolheu o amigo com muito amor.

Franklin não conseguiu segurar a dor que sentia e desabafou para aquele casal na tentativa de ser compreendido e ele foi realmente acolhido.

Ana ouvia atentamente o relato de Franklin e, enternecida, o abraçou, tentando confortá-lo daquela dor que estava gritante a olho nu. O abraço que Caio e Ana  deram em Franklin foi dissipando a névoa negra que habitava o coração dele. 

Franklin, sentindo-se amparado, voltou à realidade e aqueles pensamentos de pôr fim à sua vida se desvaneceram.

Mas, quando Franklin acordou para a realidade, lembrou-se da carta que havia colocado na mochila de sua filha caçula. Atarantado, pediu ajuda de Caio e foram voando para a casa de Marta com esperança de que ninguém tivesse lido ainda sua carta de despedida.

Quando Franklin chegou à casa de Marta, correu para o quarto onde a filha dele se encontrava e lá estava a carta dele dobradinha e no mesmo lugar.

Aliviado, Franklin abraçou a filha e, silenciosamente, pediu perdão à ela. Após dar uma desculpa qualquer para Marta e respirou novamente. O ar era puro e indescritível. Era como se ele tivesse tido uma nova oportunidade para um recomeço e assim aconteceu.

Determinado, Franklin estancou a ferida da separação e seguiu o seu curso. Olhar para o passado lhe causava dor ainda, mas ele tinha certeza de que havia dado o seu melhor, mesmo que não tivesse sido o suficiente.

Tempos depois, Franklin foi surpreendido com a cena de Marta namorando um conhecido da família de longa data, mas Franklin não se permitiu entregar-se novamente à dor. Ele já havia visitado o lugar onde a dor é imensurável e decidiu que não voltaria mais para aquele lugar.

Olhou para o horizonte e se deu a oportunidade de ter uma nova vida, mesmo que não fosse ao lado de seu grande amor que acabara de colocar um pá de cal na esperança que ainda existia dentro dele.

Enxugando as lágrimas da decepção, Franklin se abraçou carinhosamente e pediu perdão a si mesmo por um dia ter pensado em desistir de viver.

Olhando-se no espelho, deu de cara com um homem que ainda tinha sede de viver e que do lugar de onde a dor o tinha levado fez com que ele sentisse que havia renascido das cinzas e teve a certeza de que nenhuma mulher nem ninguém iria fazer ele sofrer daquela forma novamente, pois ele tinha motivo de sobra para querer viver cada dia com mais intensidade: ele havia redescoberto o real significado de amar a si mesmo novamente e isso era mais que o bastante para ele.

Patricia Lopes dos Santos
Patricia Lopes dos Santos
Escritora, autora do livro "Memórias de uma depressiva", esposa de Cristian, mãe de Sofia, Duda e Átila, me aventuro na escrita, onde me encontro totalmente.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Imagem em Destaque

Leia mais

O trio do fundão

Renascido pelo sorriso

Três lutos e um amor

A dor de Ana

A solidão que foi chamada de amor

Patrocínio

Genebra Seguros
Bristol