Era manhã de férias. Café recém-passado, a casa ainda em silêncio, e eu observava pela janela da sala quando um pássaro resolveu brincar na areia próxima ao jardim. Lançava terra para o alto, rolava sobre o chão com um entusiasmo quase infantil, como se aquele gesto simples fosse um acontecimento extraordinário. Fiquei ali, parado, assistindo. E foi nesse instante que uma pergunta incômoda se impôs: em que momento deixei de ser assim — bobo, inteiro, feliz com o banal?
Tenho andado cansado. Um cansaço que não se resolve com descanso. Às vezes irritado, outras vezes apenas sem disposição para absolutamente nada. Não é falta. É excesso. Um excesso de estímulos, de cobranças, de urgências artificiais que disputam nossa atenção como se fossem indispensáveis. A vida contemporânea parece ter feito da futilidade um valor, da pressa um mérito, da acumulação uma virtude. Corremos para possuir o que não dura, para guardar o que inevitavelmente apodrece.
Lembro — não sem certa melancolia — de um tempo em que a simplicidade do dia bastava. Não porque o passado fosse ideal ou livre de problemas, mas porque havia uma compreensão tácita de limite. O tempo tinha espessura, as experiências tinham contorno. Trabalhar, consumir, conviver obedeciam a uma lógica mais orgânica, menos invasiva. As coisas começavam e terminavam. O dia não exigia desempenho permanente. Viver não era uma vitrine contínua nem uma tarefa a ser justificada o tempo todo.
Hoje, tudo parece transbordar. As demandas invadem o descanso, o trabalho infiltra-se na intimidade, a opinião alheia atravessa decisões que deveriam ser silenciosas. Perdemos a fronteira entre o necessário e o supérfluo, entre o desejo próprio e a expectativa dos outros. O excesso não apenas nos ocupa — ele nos esgota.
Enquanto isso, o pássaro, alheio a qualquer lógica produtiva, regulava com precisão instintiva a quantidade de areia do seu banho matinal. Nem mais, nem menos. Apenas o suficiente para cumprir o ritual e seguir o dia. Não havia desperdício nem ansiedade. Aquele gesto simples me entristeceu. Não pela ave — ela estava segura, inteira, feliz —, mas por mim. Minha tristeza era contemplativa, silenciosa, invisível, dessas que não pedem socorro, apenas reconhecimento.
Como foi possível construirmos tanto e, ao mesmo tempo, sacrificarmos o essencial em nome do olhar do outro? Em que ponto confundimos viver com performar, existir com corresponder? Talvez tenhamos trocado a experiência pela validação, a presença pela utilidade, o sentido pelo acúmulo.
Tenho me sentido cada vez mais isolado, menos disposto a desperdiçar tempo com trivialidades que não nutrem, não ampliam, não aquietam. Aprendi, é verdade, que tudo passa. Que essa inércia também é transitória. A consciência da impermanência traz algum alívio, mas não elimina o lamento. Ela apenas torna mais claro o que precisa ser revisto.
A aprendizagem que me ficou naquela manhã não veio como solução, mas como advertência: não é o mundo que nos rouba a simplicidade — somos nós que, aos poucos, abrimos mão dela para atender expectativas que nunca se completam. Viver talvez exija menos conquista e mais medida. Menos ruído e mais escuta. Reaprender a brincar na areia, ainda que por instantes, pode ser um gesto de resistência num tempo que insiste em nos convencer de que nunca somos suficientes.


