Há um talento raro no Brasil contemporâneo que não aparece em rankings de inovação nem em prêmios de liderança. Ele se manifesta de forma silenciosa, persistente e extremamente eficaz: a capacidade de deslocar o foco. Enquanto alguns acumulam cifras que ultrapassam a imaginação da maioria, o debate público é cuidadosamente conduzido para mirar quem mal consegue pagar o gás.
Quem ganha um bilhão não precisa convencer diretamente quem ganha dez mil. O caminho é mais sofisticado. Primeiro, aproxima-se de quem ganha um milhão, oferecendo pertencimento, a sensação de que fazem parte do mesmo time, embora vivam realidades radicalmente distintas. Depois, agrega-se quem ganha cem mil, embalado pelo discurso do mérito e do esforço individual. Por fim, constrói-se a narrativa perfeita para quem vive no limite: o verdadeiro problema do país seria o aposentado que recebe seiscentos reais ou a família que depende do Bolsa Família ou do BPC para não passar fome.
Os dados reais do Brasil desmontam essa lógica. Segundo o IBGE, mais de 70 milhões de brasileiros vivem em situação de insegurança alimentar. Ao mesmo tempo, o país figura entre os mais desiguais do mundo, com uma das maiores concentrações de renda no topo. Grandes fortunas seguem pouco tributadas, lucros e dividendos permanecem isentos de imposto de renda, e renúncias fiscais bilionárias são concedidas anualmente a setores já altamente lucrativos. Ainda assim, o debate público raramente se inflama contra esses privilégios.
É mais fácil apontar o dedo para programas sociais que, juntos, representam uma fração pequena do orçamento federal. O Bolsa Família, por exemplo, já foi amplamente estudado e demonstrou reduzir pobreza extrema, melhorar indicadores de saúde e aumentar a permanência de crianças na escola. O BPC garante o mínimo para idosos e pessoas com deficiência que nunca tiveram condições de contribuir para a previdência. Não há luxo, não há excesso, há sobrevivência.
Enquanto isso, escândalos de sonegação fiscal, dívidas bilionárias de grandes empresas com a União e mecanismos sofisticados de evasão raramente despertam a mesma indignação coletiva. Talvez porque esses temas não sejam repetidos à exaustão nos discursos inflamados, nem transformados em vilões fáceis de identificar.
A genialidade de quem está no topo não está apenas em ganhar dinheiro, mas em construir crenças. Fazer com que classes médias se sintam ameaçadas por quem está abaixo, nunca por quem está acima. Convencer trabalhadores a disputar migalhas enquanto banquetes seguem intocados.
Por isso, a reflexão é simples e incômoda. Antes de repetir slogans, compartilhar indignações prontas ou eleger culpados convenientes, vale observar quem se beneficia daquilo em que acreditamos. Em um país onde a desigualdade é estrutural, desconfiar das narrativas pode ser o primeiro passo para enxergar o espelho que insistem em quebrar.
O Brasil real se constrói diariamente nas filas do SUS, nos ônibus lotados antes do amanhecer e nas cozinhas onde o cálculo do mês é feito com precisão cirúrgica. Nesse cenário, transformar o pobre em inimigo é mais do que injusto, é estratégico. A indignação tem direção, mas raramente escolhe o caminho que leva ao topo da pirâmide.
Há décadas, pesquisas econômicas e sociais demonstram que a mobilidade social no país é limitada. Quem nasce pobre tem grandes chances de morrer pobre, independentemente do discurso motivacional que tenta vender exceções como regra. Ainda assim, a ideia de que programas sociais criam preguiça segue circulando com força, mesmo quando os dados mostram que a maioria dos beneficiários trabalha ou está em busca de trabalho.
Esse tipo de narrativa não surge por acaso. Ela é útil. Mantém intactas estruturas históricas, desvia o debate sobre reforma tributária, concentração de terras, heranças bilionárias e privilégios herdados. Enquanto isso, a população se divide em disputas horizontais, brigando por recursos escassos, sem questionar por que eles sempre parecem insuficientes.
No fim, acreditar que o problema do Brasil está nos mais vulneráveis exige um esforço coletivo de negação. Negação da história, dos números e da realidade concreta que insiste em se repetir. Ficar de olho em quem se acredita não é um ato de desconfiança gratuita, mas de sobrevivência democrática. Porque ideias também concentram poder, e algumas delas custam caro demais para quem já tem tão pouco.


