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sábado, 24 de janeiro de 2026

Hematoma

Aconteceu em 2024. No começo de março, estive fora de casa por cinco dias para um campeonato de voleibol. A viagem de jogos foi exaustiva. Vencemos tudo em duas modalidades: quadra e areia. Voltei com um hematoma enorme no joelho direito, embora só viesse a notá-lo depois. Ao final das competições, nada parecia fora do lugar. De memória, recordo que, na disputa decisiva na areia, encostei uma vez o joelho ao chão, tentando apoiar uma amortecida de bola. Não deu outra: lesão — rasgo, sangramento, latejo. Como diria alguém por aí: “faz parte”.

Segui o caminho de volta sem atentar para os efeitos internos do golpe. A dor era leve, quase superficial, como tantas outras já experimentadas em outros jogos. Não me considero negligente, sobretudo quando se trata do meu corpo. O que parecia um arranhão de rotina, próprio da disputa esportiva, revelou-se, com o passar dos dias, um hematoma extenso e profundo, a ponto de comprometer a articulação do joelho e impedir-me de andar.

Inchou. Ficou roxo, depois preto. Tomou toda a rodela e explodiu em inflamação. Por dois dias, mal consegui mover a perna. Dormir tornou-se um desafio. Houve dores que pareciam alcançar tecidos mais fundos, irradiando pela perna inteira. Metade de mim — a direita — sofreu com intensidade.

Iniciei o que estava ao meu alcance: compressas de gelo, spray de massagem e, logo depois, um anti-inflamatório. Um comprimido vermelho a cada oito horas. O joelho reagiu; o estômago, não. Vieram os efeitos colaterais da automedicação: dores abdominais, refluxo, náusea, prisão de ventre. De repente, já não era apenas o joelho. Eu estava de cama.

As noites pioraram. O corpo parecia em colapso, como se expulsasse dor e doença por todos os poros. Somei ao tratamento um xarope caseiro, desses que prometem resolver qualquer mal, especialmente os do estômago. Por três dias, nenhuma melhora. Ao contrário: a sensação de adoecer se generalizou.

Foi um chá de gengibre que alterou o curso das coisas. Algumas horas após a primeira xícara, o organismo começou a se regular. Aos poucos, estômago e joelho responderam. Conheço o poder do gengibre sobre o estômago; não sei dizer o quanto influenciou o joelho. Agora, separados, cada um seguia sua missão — paciência e perseverança, com pitadas de resiliência. Estou rindo. É irônico demais.

O vai-e-vem dos sintomas me deixou em dúvida. O que eu tinha, afinal? Úlcera? A inteligência artificial sugeriu que sim. Também apontou estresse e raiva, hipótese que me pareceu mais plausível, já que sou um poço de indignação diante das coisas e dos acontecimentos à minha volta.

Mas o que eu aprendi? Não: não disse que aprendi. Disse que o estômago e o joelho passaram a me ensinar. A aprendizagem, assim como o ensino, é uma escolha.

O estômago, instável, insistia em lições teóricas. O joelho, ao contrário, organizou oficinas. Na prática, escolhi aprender sobre o hematoma.

Metáfora existencial que é a carne se deteriorando enquanto o corpo ainda vive, o hematoma, visto de fora, é a minha cara. Visto por dentro, é o meu coração.

Wenilson Salasar de Santana
Wenilson Salasar de Santana
Professor de leitura e escrita. Atleta no tempo livre. Produz ensaios literários em forma de conto, poema e crônica reflexiva, articulando linguagem, experiência e crítica do cotidiano.

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