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terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Estado, poder e autoritarismo

O poder corrompe porque se acostuma a mandar sem ouvir, e a história mostra, como um eco antigo e teimoso, que quase sempre são os tiranos que escrevem as regras enquanto a população paga o preço. Até o dia em que a paciência do povo, essa força silenciosa e coletiva, decide se erguer e lembrar aos déspotas que nenhuma autoridade é eterna quando se afasta da justiça e da dignidade humana.

Essa lógica antecede o próprio Estado brasileiro. Ela se forma na experiência colonial, quando decisões sobre território, trabalho, impostos e punições eram tomadas a um oceano de distância. A população local (indígenas, africanos escravizados, mestiços, camponeses pobres) não era ouvida porque não era considerada parte legítima do corpo político. Mandar sem ouvir não era um desvio: era método. A obediência era extraída pela força, pela fome ou pela fé imposta, e o custo humano era tratado como dano colateral inevitável.

No Império, a independência não rompeu essa estrutura. O Poder Moderador, previsto na Constituição de 1824, autorizava o imperador a dissolver a Câmara, nomear senadores vitalícios e interferir nos demais poderes. A aparência de equilíbrio escondia uma concentração profunda de autoridade. Revoltas como a Cabanagem, a Balaiada, a Sabinada e a Farroupilha foram respostas diretas a um Estado que legislava sem escuta regional e reprimia com violência qualquer tentativa de autonomia. A pacificação vinha depois do massacre, nunca do diálogo.

A República proclamada em 1889 prometeu cidadania, mas manteve o comando restrito. A Primeira República organizou-se em torno do coronelismo, do voto fraudado e de acordos entre elites regionais. Canudos, no sertão baiano, não foi apenas um conflito religioso: foi a destruição deliberada de uma comunidade que existia fora da lógica estatal e econômica dominante. O Contestado repetiu o padrão: população expulsa, empresa protegida, Exército mobilizado. Em ambos os casos, o Estado escreveu as regras e respondeu à miséria com bala.

Em 1937, o Estado Novo explicitou aquilo que antes operava de forma difusa. O Congresso foi fechado, partidos dissolvidos, a imprensa censurada. A autoridade passou a governar por decretos-leis, e a discordância foi tratada como ameaça à nação. Sindicatos foram controlados, opositores presos, a propaganda substituiu a escuta. O regime caiu não por arrependimento interno, mas por esgotamento político e pressão internacional após a Segunda Guerra.

O golpe de 1964 aprofundou esse padrão em escala inédita. A exceção virou sistema. O AI-5 suspendeu direitos, fechou o Congresso e institucionalizou a repressão. Tortura, desaparecimentos forçados e censura tornaram-se práticas de Estado, como documentado décadas depois pela Comissão Nacional da Verdade. As regras foram escritas por generais e juristas alinhados, enquanto a população pagou com medo, silêncio e trauma coletivo. O crescimento econômico pontual conviveu com endividamento, concentração de renda e supressão de direitos.

A redemocratização deslocou o problema sem eliminá-lo. A Constituição de 1988 criou canais de participação social, conselhos e mecanismos de controle. Quando esses instrumentos funcionaram, houve redução da pobreza, ampliação do acesso à educação e fortalecimento de políticas públicas. Quando foram esvaziados, os efeitos apareceram rapidamente: precarização do trabalho, aumento da desigualdade e deterioração de serviços essenciais. O gesto autoritário reapareceu na forma burocrática de decidir sem escuta.

As jornadas de 2013 expuseram esse esgotamento. Não apresentaram um programa único, mas revelaram que o sistema político já não absorvia demandas sociais. O impeachment de 2016 aprofundou a instabilidade institucional e rompeu consensos mínimos. Reformas estruturais passaram a ser aprovadas sem debate público amplo, conselhos participativos foram extintos por decreto, e a técnica passou a substituir o diálogo como justificativa para decisões que afetavam milhões.

Nos anos seguintes, a deslegitimação da escuta se intensificou. A ciência foi atacada, a imprensa tratada como inimiga, o funcionalismo transformado em obstáculo. A política passou a operar pela lógica da exclusão e da fidelidade, não do convencimento. O conflito permanente corroeu a confiança pública e normalizou a ideia de que regras valem apenas para alguns.

Os ataques de 8 janeiro de 2023 não surgiram do nada. Foram o produto acumulado de décadas de corrosão institucional, de tolerância ao autoritarismo discursivo e de desprezo sistemático pela mediação democrática. Ali se materializou um processo histórico prolongado: quando a escuta desaparece, a ruptura se torna possibilidade concreta.

A experiência brasileira registra, com insistência, o mesmo desfecho. O Império caiu, a República Velha ruiu, o Estado Novo terminou isolado, a ditadura acabou pressionada por crise e mobilização. Governos que governaram contra a sociedade perderam sustentação. O poder que se afasta da justiça e da dignidade humana pode durar, mas não se estabiliza.

A paciência coletiva não é passividade. É acúmulo. Forma-se no cotidiano, no trabalho precarizado, no serviço público desmontado, na vida tornada inviável. Quando se reorganiza, não pede licença. A história não guarda tiranos eternos, mas guarda, em excesso, os custos de ignorar quem sustenta o poder.

Wenilson Salasar de Santana
Wenilson Salasar de Santana
Professor de leitura e escrita. Atleta no tempo livre. Produz ensaios literários em forma de conto, poema e crônica reflexiva, articulando linguagem, experiência e crítica do cotidiano.

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