21.4 C
São Paulo
sábado, 24 de janeiro de 2026

Escrever à mão ainda importa em tempos digitais

Em uma época dominada por telas, a escrita à mão parece um hábito vazio de utilidade, prática sem sentido. Desde o início da década de 2010, com a popularização de smartphones e notebooks nas escolas e universidades, o teclado passou a ser associado à eficiência e modernidade. Ainda assim, evidências empíricas produzidas ao longo das últimas duas décadas indicam que, quando o objetivo é aprender, compreender e reter informação, escrever à mão gera resultados cognitivamente superiores ao simples ato de digitar.

Em 2014, um estudo conduzido por Pam Mueller e Daniel Oppenheimer, pesquisadores das universidades de Princeton e UCLA, nos Estados Unidos, comparou o desempenho de estudantes universitários que faziam anotações manuscritas com o de estudantes que utilizavam laptops. Os resultados mostraram que, embora os digitadores registrassem maior volume de conteúdo, os que escreveram à mão tiveram desempenho significativamente melhor em testes de compreensão conceitual e aplicação do conhecimento. O ganho não apareceu em memorização literal, mas na capacidade de explicar ideias, estabelecer relações e formular argumentos, o que evidencia um processamento cognitivo mais profundo.

A base neurológica desse fenômeno vem sendo investigada desde os anos 2000. Em 2017, pesquisadores da Universidade de Stavanger, na Noruega, utilizaram eletroencefalografia para comparar a atividade cerebral durante a escrita manual e a digitação. O estudo demonstrou que escrever à mão ativa redes neurais mais amplas, envolvendo simultaneamente áreas motoras, visuais e linguísticas.

Em 2020, pesquisas francesas com ressonância magnética funcional reforçaram esse achado ao mostrar maior ativação do giro fusiforme e do córtex motor fino durante a escrita manual, regiões associadas à formação de memória de longo prazo e reconhecimento simbólico.

No Brasil, os impactos dessa diferença cognitiva tornaram-se mais visíveis a partir da década de 2010, especialmente no processo de alfabetização. Dados do Inep e das Avaliações Nacionais da Alfabetização, realizadas entre 2013 e 2018, indicaram dificuldades persistentes na consolidação da leitura e da escrita nos primeiros anos do ensino fundamental. Pesquisas educacionais nacionais passaram a associar parte desse problema à redução do tempo dedicado à escrita manual, substituída precocemente por atividades em telas, sobretudo em contextos urbanos.

Relatos sistematizados por secretarias estaduais de educação mostram que escolas que mantiveram práticas regulares de escrita à mão, incluindo a cursiva nos anos iniciais, apresentaram melhores resultados em fluência leitora e produção textual. Esse dado ganhou força durante a pandemia de Covid-19, entre 2020 e 2021, quando o ensino remoto intensificou o uso de dispositivos digitais e agravou déficits de aprendizagem já existentes, especialmente entre crianças em processo de alfabetização.

No ensino médio, os reflexos aparecem de forma clara em exames como o Enem. Desde pelo menos 2016, correções da redação apontam dificuldades recorrentes na organização de ideias, na progressão argumentativa e na coerência textual, mesmo entre estudantes com amplo acesso à informação digital. Professores relatam que muitos alunos conseguem reproduzir conteúdos, mas têm dificuldade em estruturá-los, o que reforça a diferença entre registrar informação e elaborá-la cognitivamente.

No ensino superior brasileiro, pesquisas conduzidas ao longo da década de 2020 em cursos das áreas de humanas e ciências sociais aplicadas indicam que estudantes que fazem anotações manuscritas retêm melhor conteúdos complexos e demonstram maior capacidade de síntese e análise crítica. Não se trata de preferência pessoal ou resistência à tecnologia, mas de funcionamento cerebral. Escrever obriga o pensamento a acompanhar o gesto.

Fora do ambiente educacional, o efeito da escrita manual também foi documentado. Estudos em psicologia comportamental realizados entre 2015 e 2022 mostram que pessoas que escrevem metas à mão apresentam maior taxa de lembrança e execução dessas metas.

No Brasil, práticas terapêuticas e educacionais passaram a resgatar o diário manuscrito como ferramenta de organização emocional, especialmente após o aumento de quadros de ansiedade registrado no período pós-pandemia. Experiências das quais sou cúmplice na organização de manuscritos do gênero diário de leitura junto aos meus alunos da educação profissional de nível médio.

Digitar cumpre um papel fundamental na vida contemporânea. É indispensável para comunicação, trabalho e armazenamento de dados. Mas sua função é distinta. O teclado registra. A escrita manual elabora. Um arquivo digital guarda informação. O papel participa da construção do pensamento. Essa diferença, demonstrada empiricamente ao longo de décadas, ajuda a explicar por que escrever fixa na mente aquilo que apenas digitar tende a deixar na superfície.

Quem sabe o desafio do presente não seja escolher entre papel e tecnologia digital, mas compreender que nem todo avanço substitui processos cognitivos fundamentais.

Em um país como o Brasil, marcado por desigualdades educacionais históricas, ignorar evidências acumuladas desde o início do século XXI pode aprofundar déficits já conhecidos. Em alguns casos, aprender mais exige simplesmente desacelerar, pegar a caneta e permitir que o cérebro acompanhe a mão.

Wenilson Salasar de Santana
Wenilson Salasar de Santana
Professor de leitura e escrita. Atleta no tempo livre. Produz ensaios literários em forma de conto, poema e crônica reflexiva, articulando linguagem, experiência e crítica do cotidiano.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Imagem em Destaque

Leia mais

Sem ensaios

Justiça com contracheque blindado

O preço da ilusão do mérito

Curadoria invisível

Patrocínio

Genebra Seguros
Bristol