Existe um tipo de lucidez que nasce quando a gente se recoloca na medida certa das coisas, no nosso devido lugar. Em meio a milhões de rotinas que começam cedo, terminam tarde e quase nunca dão trégua, a vida individual ocupa um espaço discreto.
Poucas pessoas sabem quem realmente somos. Menos ainda têm tempo para pensar nisso. A maior parte está concentrada em resolver o próprio dia, driblando atrasos, contas acumuladas e a exaustão que se repete de segunda a segunda.
No cotidiano, isso fica evidente em situações simples. No transporte lotado das manhãs, ninguém repara no drama silencioso do outro. Cada pessoa olha para frente, para o relógio ou para a tela do celular, calculando se vai chegar a tempo. Na fila do atendimento público, a ansiedade não é filosófica, é prática. Vai dar tempo de resolver hoje ou não. No grupo de mensagens da escola ou do trabalho, o silêncio raramente é desinteresse pessoal. É cansaço, falta de tempo, excesso de demandas.
Ainda assim, criou-se o hábito de interpretar tudo como sinal. A mensagem visualizada e não respondida vira desprezo. A foto sem curtida vira rejeição. A opinião ignorada vira ataque. A vida passa a ser lida como se fosse um mural permanente de julgamentos. Esse deslocamento não nasce da realidade concreta, mas da exposição contínua. Quanto mais conectados, mais cresce a sensação de que estamos sendo observados, quando na prática estamos apenas sendo atravessados por fluxos impessoais.
Basta uma queda de sinal, um dia sem acesso, um fim de semana longe da tela para que a percepção mude. As discussões desaparecem sem aviso. As supostas crises não pedem continuidade. O mundo físico segue exigindo o básico: almoço, deslocamento, trabalho, descanso. A ausência de reação digital não provoca colapso algum. O que parecia urgente se revela circunstancial. O que parecia enorme retorna ao tamanho que sempre teve.
Assumir a própria insignificância, nesse contexto, não é desistência. É leitura correta do ambiente. É entender que não somos pauta central na vida alheia, assim como quase ninguém é na nossa. Cada um está ocupado tentando manter algum equilíbrio entre sobrevivência, afeto e esperança mínima de futuro. Essa constatação reduz o peso da performance constante e devolve a experiência ao campo do vivido, não do exibido.
Acredito que a maturidade contemporânea passe por isso. Reconhecer que não somos protagonistas permanentes, nem vilões ocultos, nem personagens em observação. Somos apenas mais um entre muitos, atravessando o dia. E, curiosamente, quando essa escala é aceita, a mente desacelera. Os problemas diminuem. Não porque sumiram, mas porque deixaram de ser inflados por uma vitrine que nunca se fecha.


