Todo fim de dezembro, as redes sociais se enchem de listas, metas e promessas de um “novo ano melhor”. Fotos de agendas coloridas e frases motivacionais pipocam como fogos de artifício. E todo ano, a mesma verdade: a maioria dessas promessas nunca se cumpre. Clara sabia que 89% delas ficavam pelo caminho — um dado que, para ela, falava mais que qualquer retrospectiva melancólica.
Naquela virada, ela decidiu fazer diferente. Não haveria listas, nem metas riscadas com caneta dourada. Apenas o caminhar. Ela percorria as ruas silenciosas do bairro antigo, sentindo o ar frio e a liberdade de não se prender a planos rígidos. Não era descuido, era lucidez. Num mundo que exige desempenho até de nossos sonhos, escolher viver sem cabresto era, para Clara, um gesto político.
Sentou-se em um banco de praça quase deserta. O frio mordia, mas havia conforto no silêncio. Respirou fundo e murmurou para si mesma: “Deixo a vida me levar”. Não era resignação. Era uma decisão consciente de permanecer presente, de confiar no fluxo da própria existência, de não se submeter à tirania de resultados que o mundo insiste em impor.
Ao longe, fogos de artifício iluminavam prédios e rostos ansiosos. Clara sorriu. A magia da virada não estava em cumprir metas, mas em se permitir caminhar sem pressa, abraçando o inesperado. Pela primeira vez em muitos anos, sentiu-se completamente livre. O futuro não precisava de listas. Bastava atenção, coragem e entrega ao presente.
Naquela noite, Clara aprendeu que viver é, às vezes, a maior revolução. Recusar promessas que não sentimos, confiar no fluxo da vida e simplesmente seguir: esse é o verdadeiro gesto de liberdade.


