Este texto nasce do meu Trabalho de Conclusão de Curso para me tornar Pós-Graduado em Neuropsicologia, no qual aprofundei a relação entre neuropsicologia, experiência religiosa e bem-estar, pesquisa que foi avaliada com nota máxima.
Na Umbanda, a espiritualidade ganha corpo nos rituais, e é exatamente aí que a neuropsicologia que estudei no TCC encontra a minha vivência como Sacerdote: no impacto concreto que cada gira tem na mente, nas emoções e no sentido de vida de quem busca o Terreiro. Quando falo de espiritualidade, não estou falando de teoria distante, mas do chão do Congá, da fumaça da defumação, do toque dos tambores e do olhar aliviado de quem entra carregado e sai respirando melhor.
Terreiro como espaço de cura
Quando abro uma gira, vejo claramente que o terreiro funciona como um grande campo de reorganização interna. A pessoa chega com o pensamento acelerado, o coração apertado, carregando conflitos familiares, dores emocionais e medos que não sabe nomear, e encontra um espaço onde pode chorar, falar, cantar, dançar e ser ouvida sem julgamento. A neuropsicologia chama isso de regulação emocional e ressignificação de experiências, mas, na linguagem da Umbanda, dizemos que a pessoa “descarrega”, “alivia a alma” e “acalma a cabeça”.
Rituais que regulam mente e emoção
- Defumação: Quando defumo a casa e as pessoas, não estou apenas seguindo um rito tradicional, mas criando um ambiente sensorial que marca, no corpo e no cérebro, o início de um tempo sagrado. O cheiro das ervas, o movimento da fumaça e a intenção de limpeza ajudam a pessoa a perceber que aquele momento é diferente do cotidiano, facilitando a transição de um estado de tensão para um estado de maior abertura e acolhimento.
- Toque dos tambores e pontos cantados: O toque cadenciado dos tambores e os pontos que entoamos em louvor aos Guias espirituais têm um efeito direto sobre o estado emocional. A música, que a ciência já reconhece como moduladora de humor e atenção, na gira se torna ferramenta de alinhamento coletivo, ajudando todos a entrar num mesmo “campo” de concentração, fé e entrega.
- Passes e incorporações: Quando um guia trabalha no passe, com gestos, palavras e orientações, há um diálogo direto com a dor e a esperança daquela pessoa. Vejo, na prática, o que estudo na teoria: a palavra acolhedora, o toque respeitoso e o sentimento de estar em contato com algo maior reorganizam memórias dolorosas, trazem conforto e incentivam novas atitudes, o que se reflete em bem-estar e mudança de comportamento.
- Banhos de ervas e firmezas: Quando orientamos banhos, firmezas de velas orientações, estamos oferecendo rituais que ajudam a pessoa a ter uma rotina de espiritualidade, um “hábito de cuidado” que sustenta o equilíbrio entre uma gira e consultas. Essa prática repetida, segundo a neuropsicologia, é capaz de consolidar novos padrões mentais e emocionais, fortalecendo resiliência e senso de propósito.
Como Sacerdote, percebo que a experiência religiosa não é só crença, é uma prática que mexe com corpo, memória, emoção e percepção de si mesmo, exatamente como os estudos mostram. A cada atendimento com um Guia, a cada aconselhamento diante do congá, a pessoa reorganiza narrativas internas: culpas desnecessárias são questionadas, medos são colocados em perspectiva e, muitas vezes, surge um novo sentido de propósito e dignidade.
Umbanda, bem-estar e dignidade
A partir do meu TCC, compreendo que o que vivemos no terreiro é também objeto legítimo de estudo científico: a espiritualidade como fator de proteção da saúde mental e de promoção do bem-estar. Mas, como Sacerdote de Umbanda, vejo algo a mais: vejo pessoas negras, vulneráveis, LGBTQIA+ e tantas outras, marcadas pelo preconceito e pela intolerância religiosa, encontrando na gira um lugar onde sua existência é validada, honrada e fortalecida.
Por isso, quando escrevo sobre espiritualidade, não falo de um luxo individual, falo de sobrevivência psíquica e social. A Umbanda, com seus rituais, suas Entidades e sua ética de caridade, se torna um caminho possível para que o cérebro sofredor encontre novas conexões, e para que o coração cansado reencontre coragem de continuar. É nessa encruzilhada entre neuropsicologia e terreiro que reconheço a força da espiritualidade: ela atravessa a mente, mas também atravessa o corpo, a história, a cultura e o direito de cada pessoa viver a sua fé em paz.
Se você tiver interesse em conhecer na íntegra esse estudo e seguir comigo nessa caminhada entre ciência e espiritualidade, pode acessar o TCC através do link:
https://drive.google.com/file/d/1b1tOERs1hyRkMIEDv2XHgK9XTHtBZ-M3/view?usp=sharing
* Pai Lucas de Xangô é Sacerdote e Diretor da FENARC ( Federação Espiritualista Nacional Afro-Religiosa e Cultural),escritor e ativista da valorização das religiões de matriz africana no Rio Grande do Sul.


