Dona Jesus, ou simplesmente, De Jesus. Quem era esta senhora, onde
ela morava, qual fora sua rotina pela região do Cariri e que tipo de devoção
religiosa mais se dedicava? Você talvez se adiantou para querer saber quem
seria essa senhora chamada De Jesus. Acompanhe agora o que se segue:
Dona Jesus, uma humilde senhora moradora da Cidade do Crato, Estado
do Ceará, nos meados de 1960, residia na zona rural, no distrito de Santa Fé,
lugar Sítio Pau Amarelo, propriedade do senhor Expedito Aristides, constituía ela
uma família de oito filhos. O marido há muitos anos a tinha abandonado. Porém,
sozinha se encarregou de sustentá-los com muito sacrifício, com a fé e
promessas a seu padrinho de batismo, Padre Cícero Romão Batista. A quem ela
era devota. Isso a fez porque num certo dia, uma de suas crianças, Suci, havia
comido, acidentalmente, uma macaxeira braba, não comestível, sentindo-se mal,
à beira da morte, depois de intensas rezas diante do seu Oratório ela rogou aos
pés de seu padrinho, por um milagre, Suci voltou a viver. Dona Jesus, então, fez
uma promessa por toda sua vida: Visitar todo ano a cidade de Juazeiro do
Norte/CE, ir ao Horto, sempre a pé, a uma distância mais de trinta e seis
quilômetros.
Com sua inabalável fé em Deus e seu sagrado filho, Jesus Cristo. Ela,
além de estar diariamente apegada ao seu ritual apostólico, permaneceu por
toda sua vida se vestindo das túnicas de São Francisco.
Para criar seus filhos, no sertão tenebroso, com os anos de secas, até
sem ter o que comer, Dona Jesus trabalhava na roça quando nas escassas
chuvas de bons invernos, coletava sementes de fazer sabão caseiro: oiticica,
tingui. Que, com a venda desse produto dava-lhe um pouco de sustento.
Também fazia todos os serviços domésticos de sua patroa, Dona Hilda, que a
considerava num vínculo familiar entre os filhos de ambas. De Jesus, com sua
boa-fé, continuamente rezando, cumprindo suas promessas, adquiriu o ato de
curar, a ser uma das dezenas de mulheres rezadeiras do sertão nordestino.
Com o saber popular, utilizava seu dom através de ervas medicinais e
constantes orações, curava com suas rezas os enfermos de dores de cabeça e
dentes inflamados, febres, mordidas de insetos, escorpiões e mais.
Nas suas peregrinações pelas matas, caminhos fechados, pedregosos,
íngremes, para realizar suas curas, teria que chegar às casas por onde havia
uma pessoa enferma, ela conhecia todos esses caminhos de olhos fechados.
Com a idade avençada, tomada de catarata, passou a perder sua visão quase
que completa. Todavia, De Jesus, mesmo assim, peregrinava os mais difíceis
caminhos de pedras e tocos que só ela mesma conhecia. Atravessava os
povoados sempre por ela frequentado: Campo do Meio, Ponta da Serra, Riacho
Fundo, Araticum, Riacho das Vacas, Mamão, entre outros locais do sul do sertão
carirense. Até que um certo dia, pela madrugada, teria que realizar uma viagem
acompanhada de duas meninas, suas netinhas, com mais dois garotos, filhos de
Dona Hilda, saindo do sitio Pau Amarelo à cidade de Nova Olinda, destino final.
Para esta viagem, com as quatro crianças, ela teria que alimentá-las
quando sentissem fome. Preparou um doce caseiro, feito de rapadura, com
farinha, amendoim, gergelim e outras semente de seus segredos fitoterápicos. E
por volta das quatros da madrugada, partiu De Jesus com suas ovelhas na frente
subindo e descendo, levando escorregões e topadas nos tocos pelos caminhos.
Ela sempre advertindo-as para que não se machucassem. Ela, que já não
enxergava mais, andava sem que levasse sequer uma simples topada. Ao
chegar a hora da fome, já quase meio-dia, Dona Jesus, com suas crianças, parou
num lugar sombrio. Tirou do bolso de sua túnica, uma latinha contendo o
alimento precavido para seu pequeno rebanho na hora sacra. Nesta latinha
havia, sim, o precioso e milagroso nutriente que daria forças, energia para que
elas pudessem seguir a viagem até o fim. Assim De Jesus, com a latinha nas
mãos, abrindo-a e tirando uma folha de cada vez da árvore de juá, que as
protegia do sol quente do sertão. Nestas folhinhas como se fossem colheres, De
Jesus enchia-as de doce e passava para as crianças, uma por vez. Elas
comeram o doce num dia onde somente havia o sol, árvores secas, com exceção
do juazeiro, num lugar inabitável num raio de léguas. E o doce muito doce, como
mataria a sede assim de suas ovelhas, depois do suplemento alimentar? Após,
Dona Jesus sentada em descanso numa pedra, disse para os meninos que a
olhavam como se agora pedissem-lhe água que não tinha, bem provável, lugar
nenhum onde se encontravam. Mas De Jesus, com as mãos apontadas para um
lugar, disse-lhes: – Vão bem ali, numa árvore, pertinho dela cavem um buraco com as mãos
mesmo, que tem água e bebam.
Seguiram viagem a Nova Olinda. Onde, anos depois ela foi morar até o
fim de sua vida. Curando pessoas. E dizem que mesmo após seu falecimento,
continua fazendo milagres…
Autor:
JOÃO BOSCO DE SOUSA RODRIGUES


