Você acorda e não escolhe o que vai aprender; o algoritmo escolhe qual polêmica vai sequestrar sua atenção. O feed não é uma janela para o mundo, mas um espelho de parque de diversões, calibrado para refletir aquilo que gera reação imediata. Não há compromisso com formação, apenas com permanência. O conteúdo que provoca ira, medo ou excitação vence o que exige tempo, silêncio e elaboração.
No Brasil, essa engrenagem encontrou terreno fértil. O país figura, há anos, entre os que mais passam horas diárias em redes sociais, segundo levantamentos de institutos de pesquisa em cultura digital e telecomunicações. Ao mesmo tempo, convive com baixos índices de leitura contínua e compreensão crítica de informação. O resultado é um consumo intenso de dados fragmentados, muitas vezes sem contexto histórico, social ou econômico, que cria a sensação de estar informado sem, de fato, compreender.
A promessa inicial da internet como espaço de pluralidade foi sendo substituída por um modelo de curadoria opaca. Plataformas privadas passaram a decidir, por critérios comerciais, o que aparece e o que desaparece. O debate público passou a obedecer ao ritmo do hype, não da relevância. Questões estruturais como desigualdade, saneamento, educação ou políticas de longo prazo cedem espaço a escândalos efêmeros, conflitos morais fabricados e disputas que se encerram no próprio ciclo de engajamento.
Esse mecanismo teve efeitos concretos na política recente. Processos eleitorais, debates sobre políticas públicas e crises institucionais foram atravessados por ondas de desinformação e polarização amplificadas por algoritmos que premiam conteúdo emocionalmente extremo. Pesquisas acadêmicas brasileiras já demonstraram que notícias falsas e discursos simplificados circulam mais rápido e alcançam mais pessoas do que análises técnicas ou jornalismo aprofundado.
A chamada liberdade de navegação permanece formal, mas esvaziada. A escolha existe, desde que se aceite o cardápio imposto. Vê-se muito, mas quase sempre o mesmo recorte. O feed confirma crenças, reforça indignações previsíveis e reduz o contato com o contraditório. A atenção, transformada em mercadoria, passa a ser administrada por sistemas que conhecem hábitos melhor do que o próprio usuário.
Há também um impacto cultural silencioso. O aprendizado deixa de ser processo contínuo e vira reação sucessiva. O tempo necessário para pensar é substituído pela urgência de opinar. A formação do pensamento crítico é corroída pela lógica da atualização constante, que não aprofunda, apenas substitui temas. O excesso de estímulo convive com a escassez de compreensão.
A ficção científica chamou isso de distopia muito antes de virar cotidiano. O que parecia exagero narrativo hoje se manifesta em rotinas organizadas por notificações, tendências e métricas invisíveis. A normalização desse modelo transforma a exceção em regra e faz da distração permanente uma forma de controle social pouco perceptível.
Romper esse ciclo não é gesto individual heroico, mas reconhecimento estrutural. Enquanto a atenção for explorada como recurso econômico, a internet seguirá parecendo livre, embora funcione como espaço delimitado. A questão central não é o acesso à informação, mas quem decide o que merece ser visto, discutido e esquecido.


