É impossível não perceber, no Brasil dos últimos anos, uma correlação cada vez mais evidente entre o aumento da violência contra animais e a expansão de grupos de ódio e comunidades digitais que estimulam práticas de crueldade. Os dados recentes não permitem tratar esse fenômeno como coincidência. Em 2025, segundo o Conselho Nacional de Justiça, o país registrou uma média de 13 novos casos de maus-tratos a animais por dia, com quase cinco mil processos judiciais abertos ao longo do ano. O crescimento supera 20% em relação a 2024 e ultrapassa 1.400% quando comparado a 2021, indicando uma escalada consistente e estrutural dessa violência.
Esse avanço ocorre no mesmo período em que o Brasil se consolida como um dos países mais conectados do mundo. Dados atualizados mostram que cerca de 95% das crianças e adolescentes entre 9 e 17 anos, aproximadamente 25 milhões de jovens, têm acesso regular à internet, em sua maioria por meio de smartphones pessoais. A entrada precoce e pouco mediada nesse ambiente cria um cenário em que a socialização digital passa a ocupar papel central na formação ética, emocional e relacional.
Relatórios recentes da SaferNet Brasil ajudam a dimensionar esse contexto. Entre janeiro e julho de 2025, a organização recebeu mais de 49 mil denúncias anônimas de crimes cibernéticos envolvendo abuso, exploração e incitação à violência, o que representa quase dois terços de todas as denúncias registradas no período. Embora nem todas estejam diretamente ligadas à violência contra animais, elas revelam um ambiente digital saturado por práticas que banalizam o sofrimento e transformam a agressão em linguagem recorrente.
É nesse espaço que grupos de ódio e comunidades virtuais operam. Muitas delas funcionam em redes sociais de grande alcance e em aplicativos de mensagens criptografadas, onde a fiscalização é limitada. Nesses ambientes, jovens são estimulados a cometer atos de crueldade como forma de pertencimento, visibilidade e validação coletiva. Curtidas, comentários e compartilhamentos funcionam como recompensa simbólica. A violência deixa de ser tabu e passa a ser performance. O sofrimento do outro, sobretudo de seres indefesos como animais, vira conteúdo.
A violência contra animais, nesse contexto, não é apenas um crime isolado. Ela cumpre uma função simbólica. Estudos desenvolvidos no campo da psicologia social e da criminologia, inclusive pesquisas realizadas no Brasil desde os anos 2000, apontam que maus-tratos a animais aparecem com frequência como marcador precoce de comportamentos agressivos mais amplos. Não se trata de determinismo, mas de um alerta empírico consistente. Quando a crueldade é tolerada, incentivada ou aplaudida, ela tende a escalar.
O Observatório Nacional dos Direitos Humanos registra que, entre 2017 e 2022, mais de 76 mil ocorrências de incitação à violência contra a vida foram denunciadas no ambiente digital brasileiro. Esses dados ajudam a compreender que a crueldade não se restringe a um alvo específico. Ela circula, se adapta e encontra novas formas de expressão. O que começa com um animal indefeso pode se deslocar para outros corpos, sempre em busca de novos limites a serem rompidos.
É preciso situar esse debate no Brasil contemporâneo, marcado por desigualdades sociais profundas, fragilização de vínculos comunitários e um enfraquecimento progressivo de referências éticas compartilhadas. Para muitos jovens, especialmente aqueles que crescem em contextos de isolamento social ou familiar, os grupos digitais se tornam espaço de pertencimento primário. Quando esse pertencimento é mediado pela violência, o resultado é previsível.
Falar sobre a vida online de crianças e adolescentes, portanto, não é moralismo nem pânico tecnológico. É responsabilidade social. Monitorar não é vigiar por paranoia, mas acompanhar por cuidado. Saber com quem se conversa, que conteúdos circulam, que discursos são naturalizados e que práticas são incentivadas é uma forma concreta de proteção individual e coletiva. A omissão, nesse cenário, não é neutralidade. É risco.

