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sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Constatação

No início, ele achava exagero. Uma visão amarga demais do mundo, coisa de quem se deixou endurecer pela vida. Preferia acreditar que a maioria errava por distração, por ignorância ou cansaço. Que o mal, quando surgia, era quase sempre fruto de equívocos, não de intenção. Essa crença o mantinha leve. Era uma forma de seguir confiando, de caminhar sem armaduras, de acreditar que bastava ser correto para que o entorno respondesse à altura.

Mas o tempo é um professor sem delicadeza — e sem exceções.

Com os anos, ele passou a reconhecer padrões. Pessoas que repetiam os mesmos gestos nocivos, as mesmas palavras calculadamente ambíguas, os mesmos jogos de poder travestidos de normalidade. Não havia tropeço, não havia acaso. Havia método. Gente que se aproximava para acessar fragilidades, que escutava apenas para usar depois, que elogiava para baixar a guarda e atacava quando o outro já estava exposto. Bagunçavam vidas alheias com a naturalidade de quem reorganiza uma gaveta que não é sua — e depois iam dormir tranquilas, sem o menor ruído na consciência.

Ele começou a perceber isso em situações banais, quase invisíveis: no colega que sabotava silenciosamente o trabalho alheio enquanto discursava sobre cooperação; no amigo que comemorava derrotas disfarçadas de conselhos; na pessoa que espalhava dúvidas, intrigas e inseguranças e depois se apresentava como mediadora do caos que ela mesma criou. Pequenas ações, repetidas com constância, capazes de corroer projetos, relações e autoestima.

O que mais o inquietava não era a existência dessas pessoas, mas a lucidez com que agiam. Não queriam crescer: queriam impedir o crescimento do outro. Não buscavam resolver seus próprios fracassos: precisavam que o fracasso se espalhasse, para que o próprio vazio parecesse menos gritante. Quando nada dava certo para elas, o insucesso alheio virava consolo, justificativa, anestesia.

Foi então que entendeu algo decisivo: há quem erre tentando acertar — e há quem prejudique para se sentir inteiro. São mundos morais distintos, embora dividam os mesmos espaços, as mesmas mesas, os mesmos discursos sobre ética e boa convivência. A convivência pode ser inevitável; a ingenuidade, não.

Essa constatação não o transformou em alguém amargo, mas em alguém responsável por si. Aprendeu que bondade não dispensa limites, que empatia não exige submissão e que tolerar o intolerável não é virtude, é omissão consigo mesmo. Passou a agir com mais critério: escolheu melhor quem escutava seus planos, quem tinha acesso às suas fragilidades, quem caminhava ao seu lado quando não havia vantagens a oferecer.

Descobriu, sobretudo, que reagir não é se tornar igual. Agir é estabelecer fronteiras claras, interromper ciclos tóxicos, recusar jogos silenciosos de humilhação e disputa. Agir é não normalizar o que corrói, é não chamar de “conflito” aquilo que é abuso contínuo, é não confundir paz com silêncio imposto.

Ainda acredita no bem, mas agora sem romantismo. Entendeu que nem toda maldade grita; muitas sorri. Nem todo ataque vem com violência; alguns chegam disfarçados de cuidado, de preocupação, de amizade. E que reconhecer isso não é perder a fé nas pessoas — é amadurecer o olhar e assumir responsabilidade pelo próprio caminho.

No fim, concluiu algo simples e incômodo: o mundo não é cruel o tempo todo, mas também não é inocente. E viver bem não é apenas desejar que tudo dê certo. É aprender a se posicionar, a proteger o que se constrói e a seguir em frente mesmo quando alguém torce, silenciosamente, para que você caia. É escolher, todos os dias, não ser espectador da própria vida.

Wenilson Salasar de Santana
Wenilson Salasar de Santana
Professor de leitura e escrita. Atleta no tempo livre. Produz ensaios literários em forma de conto, poema e crônica reflexiva, articulando linguagem, experiência e crítica do cotidiano.

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