O despertador tocou como toca todos os dias: sem piedade. Levantei-me com o peso das horas por pagar, das contas que vencem antes do salário, dos compromissos que não admitem falha. A vida adulta não avisa quando começa; ela se instala. E, quando se percebe, já estamos empurrando os dias como quem move móveis pesados por um corredor estreito, sem saber ao certo para onde.
A cozinha ainda guardava o silêncio da madrugada. Preparei o café com cuidado excessivo para algo tão simples. Observei a água ferver, o pó ceder, o cheiro ocupar o espaço. Havia ali uma tentativa discreta de suspender o mundo por alguns minutos, como se aquele gesto pudesse criar um abrigo provisório contra tudo o que viria depois. Não criou. O relógio permaneceu intacto, lembrando que o tempo não negocia e que o custo de existir aumenta todos os meses.
Na rua, a cidade funcionava no automático. Passos rápidos, rostos tensos, corpos treinados para cumprir trajetos sem desvio. Cada um carregava uma urgência própria, uma forma particular de se manter de pé. Pensei no quanto aprendemos a chamar isso de normalidade. Trabalhar para manter o mínimo, correr para não cair, calar para não perder. E seguir, mesmo quando o sentido vai ficando pelo caminho.
No semáforo, um vendedor improvisado segurava um buquê desalinhado. Flores que não combinavam entre si, como se tivessem sido colhidas às pressas, sem critério. Não comprei. O sinal abriu. Mas a imagem ficou. Aquelas cores fora de ordem, insistindo em existir no meio do concreto, pareciam um erro tolerado pela cidade — e talvez por isso chamassem tanta atenção.
O dia avançou sem surpresas. Reuniões, tarefas, pequenas concessões que se acumulam até formar uma vida inteira. Em algum momento, percebi o quanto adiamos tudo o que nos faz bem para um futuro abstrato. Descansar depois. Viver depois. Sentir depois. Como se houvesse garantia de chegada. Como se o corpo fosse eterno e o tempo, paciente.
À noite, em casa, decidi não resolver nada grande. Preparei uma refeição simples, coloquei uma música antiga, abri a janela. Comi devagar. Não foi um gesto de redenção, nem de fuga. Foi apenas um intervalo consciente. Por alguns minutos, não produzi, não rendi, não correspondi. Estive ali, inteiro, sem me medir pelo que entrego.
Foi nesse silêncio que algo se tornou claro: romantizar a vida não é negar sua dureza, é se recusar a ser esmagado por ela. É criar pequenos pontos de luz em um cotidiano que tende ao cinza. Não para escapar da realidade, mas para não desaparecer dentro dela.
Porque, no fundo, há uma verdade simples que raramente encaramos sem ironia: não vamos sair daqui vivos. E, sabendo disso, atravessar os dias apenas no modo sobrevivência é uma forma discreta de desistência.Talvez amadurecer não seja endurecer, mas aprender a proteger o pouco que ainda nos toca. Transformar o café em ritual, o descanso em necessidade, o prazer em resistência. Criar alegria não como luxo, mas como condição mínima para continuar. Antes que o café esfrie. Antes que o corpo canse de vez. Antes que a vida passe inteira enquanto estamos ocupados demais tentando merecê-la.


