O racismo, o fascismo e as violências que os acompanham não surgiram como invenção recente nem como exagero retórico do presente. Eles fazem parte da formação histórica das sociedades modernas e, no caso brasileiro, estruturam relações sociais desde a colonização. Tratar essas práticas como desvios episódicos é uma forma conveniente de ocultar sua permanência. O que muda ao longo do tempo não é a essência da opressão, mas o modo como ela se apresenta.
No Brasil, o racismo não foi um efeito colateral da escravidão, mas seu princípio organizador. Por mais de três séculos, a economia foi sustentada pelo trabalho escravizado, e a abolição formal em 1888 não foi acompanhada de qualquer política de integração social. O Estado libertou juridicamente, mas abandonou materialmente. A ausência de terra, escola e trabalho formal produziu uma desigualdade racial que atravessou a República e permanece visível nos indicadores de renda, escolaridade e violência.
Essa herança não ficou restrita ao passado distante. Durante o século XX, políticas de branqueamento, repressão cultural e criminalização da pobreza reforçaram hierarquias raciais sob o discurso da ordem. A ditadura civil-militar, iniciada em 1964, incorporou práticas fascistas de vigilância, censura e eliminação do dissenso, legitimadas pela ideia de inimigo interno. Tortura, perseguição e assassinato político não foram excessos isolados, mas método de governo.
No período democrático, essas estruturas não foram plenamente desmontadas. A Constituição de 1988 ampliou direitos, mas a violência estatal continuou incidindo de forma desigual. Dados reiterados mostram que jovens negros seguem como principais vítimas de homicídio, sobretudo nas periferias urbanas. A lógica do controle pela força permanece operando, agora sob o argumento da segurança pública. O corpo negro continua sendo tratado como suspeito antes de ser reconhecido como cidadão.
O avanço recente de discursos autoritários não surge do nada. Ele se alimenta de uma memória mal resolvida, de uma história interrompida sem responsabilização. Quando a ditadura é relativizada, quando a escravidão é apresentada como detalhe distante, abre-se espaço para que práticas violentas reapareçam com nova linguagem. O fascismo não retorna como cópia do passado, mas como adaptação às fragilidades do presente.
Negar a existência dessas continuidades não é neutralidade, é escolha política. O apagamento histórico funciona como ferramenta de manutenção da desigualdade, pois impede a identificação das causas reais da exclusão. Sem memória, a violência parece acidente. Com memória, ela revela padrão. Por isso, lembrar não é insistência ideológica, é requisito de honestidade intelectual.
Denunciar essas estruturas não significa viver preso ao passado, mas compreender como ele organiza o presente. Políticas de reparação, ações afirmativas e debates sobre violência institucional não surgem por capricho, mas como resposta a processos históricos objetivos. Ignorá-los em nome de uma falsa conciliação apenas prolonga a injustiça.
Recusar o esquecimento é condição mínima para qualquer projeto de justiça. Um país que se recusa a encarar suas violências fundadoras está condenado a repeti-las sob novas formas.
O leitor faz parte dessa história, seja como alvo direto, seja como beneficiário indireto de estruturas herdadas. A escolha que se impõe não é entre lembrar ou esquecer, mas entre reproduzir a opressão ou enfrentá-la conscientemente. Justiça não nasce do silêncio confortável, mas do reconhecimento incômodo daquilo que sempre esteve diante de nós.


