Quem vive com a respiração curta aprende cedo a contar o dia em migalhas. Acorda calculando o preço do pão, o tempo do ônibus, a paciência do patrão, a sorte de não faltar luz, água, saúde. Sobreviver vira um turno integral, como um trabalho invisível que começa antes do sol nascer e não termina quando o corpo pede descanso. E quando toda a energia é gasta tentando atravessar o ontem, sobra pouco, ou nada, para desenhar o amanhã.
A escassez costuma ser medida em números: renda, metros quadrados, calorias. Mas há um furto silencioso que raramente entra nas estatísticas. Ela rouba a imaginação. Não por falta de talento, mas por excesso de urgência. Quem precisa apagar incêndios o tempo todo não consegue sonhar com a planta da casa. O futuro vira um luxo abstrato, um cômodo fechado para quem ainda luta para manter o chão firme no presente.
Nas periferias, essa dinâmica se repete com precisão cruel. Crianças aprendem cedo a ser práticas, adultas demais para a idade, ajudando em casa, cuidando de irmãos, entendendo cedo o valor do dinheiro que falta. Jovens escolhem caminhos não pelo desejo, mas pelo risco, optando pelo que “dá retorno rápido” em vez do que faz sentido a longo prazo. Adultos acumulam cansaços físicos e emocionais. O vocabulário encolhe: “depois”, “quem sabe”, “um dia” passam a soar como promessas vazias. A imaginação, essa força que inventa saídas onde só há muros, vai sendo substituída por uma disciplina dura: aguentar.
Mas a imaginação não é fuga. É ferramenta. Não é devaneio; é projeto. Ela antecede qualquer transformação concreta. Antes da política, do emprego, da casa, vem a capacidade de imaginar que outra vida é possível. Todo direito conquistado começou como ideia, todo avanço coletivo nasceu de alguém que ousou pensar além do limite imposto. Sem isso, a sobrevivência vira destino, não etapa.
Recuperar a imaginação é um ato político. É desafiar a lógica que diz que certos corpos nasceram para resistir, não para criar. É lembrar que pensar o futuro também é trabalho, e dos mais difíceis, quando o presente aperta. Não se trata de romantizar a pobreza nem de pedir esperança como quem pede silêncio. Trata-se de criar condições reais para que o sonho não seja um privilégio reservado a poucos.
Quando uma comunidade cria um sarau, um jornal mural, uma horta, uma cooperativa, algo se rearranja. Não apenas a renda ou o espaço, mas o horizonte. Esses gestos, muitas vezes vistos como pequenos, reconstroem o direito de imaginar coletivamente. A pergunta muda de “como eu sobrevivo hoje?” para “o que podemos construir juntos?”. A imaginação volta a circular, como energia renovável, abastecendo decisões, desejos e alianças.
Desenhar o amanhã exige combustível. E esse combustível não nasce do nada. Vem do tempo que se liberta quando a urgência diminui, da dignidade que se reconhece quando direitos básicos são garantidos, do direito de errar e tentar de novo sem que cada falha signifique queda irreversível. Vem de políticas que aliviam o peso do agora, de redes que sustentam, de narrativas que não reduzam vidas à estatística.
Enquanto a escassez tentar nos convencer de que pensar é luxo, resistir será mais do que existir. Será imaginar. Porque só quem consegue ver além do dia seguinte encontra força para mudar o curso da semana, do mês, da história. Recuperar a imaginação não é o fim da luta. É o começo de sair do modo sobrevivência e, finalmente, aprender a viver.


