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sábado, 24 de janeiro de 2026

A Mão Invisível do Algoritmo: Quem realmente governa a era digital?

O filósofo britânico Jeremy Bentham idealizou, no século XVIII, o Panóptico: uma estrutura circular onde um único guarda poderia observar todos os prisioneiros sem que eles soubessem que estavam sendo vigiados. No século XXI, as paredes de concreto foram substituídas por linhas de código. O mundo digital, longe de ser apenas um espaço de conexão, tornou-se o mais sofisticado laboratório de relações de poder da história humana.

No início da internet, a promessa era a democratização total da voz. As redes de fato, deram liberdade aos movimentos populares e possibilitaram que o cidadão comum questionasse as narrativas oficiais. Contudo, essa “horizontalidade” é, em grande parte, ilusória. Por trás da interface amigável de nossas redes favoritas, existe uma hierarquia comandada pelas chamadas Big Techs. O poder contemporâneo não se exerce mais apenas pela força física ou pela lei, mas pela gestão da atenção. Quem controla o que você lê ao acordar e qual vídeo aparece em sua tela antes de dormir detém um poder de influência superior a muitos chefes de Estado.

O Capitalismo de Vigilância

A grande moeda de troca na sociedade contemporânea não é o real ou o dólar, mas odado. Cada curtida, cada segundo de visualização e até o tempo que você gasta lendo este parágrafo são transformados em matéria-prima. Como define a professora Shoshana Zuboff, vivemos sob o “Capitalismo de Vigilância”, onde a experiência humana é extraída gratuitamente para estratégias alimentares comportamentais que são vendidas ao mercado publicitário e político. A manipulação algorítmica, como demonstrado em escândalos como a Cambridge Analytica e o Facebook, tem o poder de alterar o curso de eleições, amplificar discursos extremistas e criar bolhas como terreno fertil para disseminação de fake news que enfraquecem o debate público e a democracia.

Nesse cenário, a relação de poder é profundamente desigual. As plataformas possuem o “conhecimento total” sobre o usuário, enquanto o usuário possui “conhecimento zero” sobre os critérios que os algoritmos utilizam para filtrar sua realidade. O impacto social mais visível dessa dinâmica é a fragmentação do debate público. Para manter o usuário conectado por mais tempo, os algoritmos privilegiam o conteúdo que gera engajamento e nada envolve mais do que o conflito e a confirmação de estratégia prévia. O resultado é a criação de “bolhas de filtro”, onde o contraditório desaparece e o “outro” é desumanizado. A política deixa de ser o campo do diálogo para se tornar uma guerra de torcidas alimentada pela desinformação, onde o poder é conquistado não pelo melhor argumento, mas pela capacidade de manipular o algoritmo.

O Desafio da Soberania Digital

Não se trata de adotar uma postura ludista e rejeitar a tecnologia, mas de compreender que o digital é político. A sociedade contemporânea não é centro de uma queda de braço: de um lado, a autonomia do indivíduo e a soberania dos Estados; por outro lado, o poder transnacional de corporações que não foram eleitos por ninguém, mas que moldam a cultura e a psique global. As normas das redes e a educação para a alfabetização digital não são apenas diretrizes técnicas; são medidas urgentes de defesa da democracia. Embora não entendamos que o algoritmo é um instrumento de poder, continuaremos sendo não os usuários, mas o próprio produto da engrenagem digital.

Bianca Duarte Dias
Bianca Duarte Dias
Historiadora e Pós-graduada e Ciencias Humanas e Sociais Aplicadas e Pós-graduada em Economia e Geopolitica.

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