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sábado, 24 de janeiro de 2026

A infância que não cabia em stories

Ter vivido a infância antes da invasão das redes sociais foi uma bênção silenciosa, daquelas que só se compreende quando já não existem. Não havia filtros, curtidas ou algoritmos organizando a autoestima. Havia rua. Havia tempo. Havia o erro cometido longe de qualquer plateia, sem registro, sem julgamento coletivo, sem a necessidade de performar felicidade.

Brincar na rua não era um conceito romântico, era rotina. O chão machucava o joelho, a bola quebrava vidraça, a bronca vinha depois. Mas tudo acontecia no mundo real, com consequências reais e aprendizados duradouros. Conversava-se olho no olho porque não existia outra opção. O silêncio era respeitado, a vergonha passava, o conflito se resolvia ali mesmo, sem prints, sem cancelamentos, sem memória digital eterna.

Errar era um direito. Cair, dizer besteira, mudar de ideia, tudo isso fazia parte do crescimento. O erro morria no mesmo dia em que acontecia. Não virava arquivo, não era ressuscitado anos depois como prova de caráter. A infância ensinava limites sem exposição, responsabilidade sem humilhação, convivência sem espetáculo.

Era um tempo simples, mas não raso. Simples porque o essencial bastava: companhia, imaginação, presença. Livre porque não havia vigilância constante nem a obrigação de existir para os outros o tempo todo. Verdadeiro porque ninguém precisava parecer melhor do que era. A vida não exigia edição.

Hoje, quando se fala em memória, fala-se em armazenamento. Antes, memória era afeto. Era cheiro de chuva, fim de tarde, rua vazia avisando que era hora de entrar. Essas lembranças não rendem engajamento, mas sustentam quem somos quando o barulho cresce demais.

Talvez a maior falta que esse tempo faz não seja da rua, mas da possibilidade de ser criança sem plateia. De crescer longe dos holofotes, errar em paz e construir identidade sem precisar provar nada. Não era um mundo perfeito, mas era um mundo habitável. E isso, cada vez mais, é raro.

Wenilson Salasar de Santana
Wenilson Salasar de Santana
Professor de leitura e escrita. Atleta no tempo livre. Produz ensaios literários em forma de conto, poema e crônica reflexiva, articulando linguagem, experiência e crítica do cotidiano.

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