O globo terrestre passa no início do segundo quartel do século XXI por um período de intensa turbulência geopolítica, geoeconômica e tecnológica que representa a transição entre uma velha ordem surgida com o fim da Segunda Guerra Mundial e uma nova ordem ainda por se firmar em que o eixo passa do Atlântico Norte (o chamado Ocidente) para a Ásia-Pacífico (o chamado Oriente). Como todos os períodos anteriores de transição histórica e estrutural os valores, regras e instituições até então considerados como consagrados passam a não valer mais e os atores até então dominantes lutam desesperadamente para preservar seu poder e deter a duras penas a ascensão de novos atores, esses mais vigorosos e com maior potencial de florescimento.
Por isso que se observam no momento ações truculentas por parte de um decadente ator geopolítico para assegurar dominação neocolonial em seu “quintal” no hemisfério ocidental e abandonar áreas do mundo que se tornaram difíceis ou caras demais para controlar. A sobrecarga (overstretch) do império levou à sua exaustão fiscal e à deterioração econômica e desigualdade social no território central do império, com riscos de fragmentação política que poderão levar a sua desagregação final. Nesse contexto perigoso e assustador é que se torna cada vez mais importante à entrada em cena de forças estabilizadoras que sirvam de anteparo para compensar ou minimizar os fatores entrópicos que podem levar ao colapso da economia global, causados pelo abandono dos fundamentos da ordem econômica liberal vigente nos últimos 80 anos.
A China, pelo peso crescente de sua produção industrial, o dinamismo inovador de sua sociedade e a capacidade de redistribuir renda à população, constitui o pilar da nova ordem mundial em formação. Juntamente com outros atores do Sul Global (como o BRICS), o país asiático se credencia como elemento capaz de estancar o clima de desordem nos mercados internacionais, reconstituir cadeias globais de valor, reduzir a insegurança nos sistemas monetário e financeiro, perseverar no combate às mudanças climáticas e estabilizar a confiança dos investidores. Para isso a China e seus parceiros já criaram mecanismos alternativos de pagamentos no comércio internacional e de financiamento ao desenvolvimento, inclusive no tocante à tão necessária questão da infraestrutura, como a Iniciativa Cinturão e Rota. O país asiático também vem assumindo um papel crescente em defesa do multilateralismo e como fonte de cooperação técnica e financeira e de transferência de tecnologia aos países emergentes e em desenvolvimento. Contribui, assim, de forma significativa para a manutenção da paz, a preservação das bases da prosperidade compartilhada e a interação solidária entre as nações.
No ano de 2025, marcado por intensa volatilidade e conflitos geopolíticos e baixo crescimento econômico em várias partes do mundo, a economia chinesa teve um desempenho bem além das expectativas dos analistas. Organizações internacionais, como o Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional (FMI) e a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômica (OCDE), elevaram as suas previsões de crescimento para a China, destacando a forte resiliência da sua economia em face aos desafios globais e domésticos e a eficácia das suas políticas macroeconômicas orientadas para o estímulo ao consumo.1
As exportações da China cresceram 6,1% em 2025, apesar das pressões protecionistas externas, demonstrando capacidade competitiva e uma mudança estratégica em direção a novas tecnologias e mercados, reduzindo sua dependência de mercados dos EUA e da União Europeia e aumentando significativamente o comércio com a ASEAN, a África, a América Latina e a Ásia Central. De fato, a China alcançou um superávit comercial recorde, com o comércio total de bens atingindo um novo patamar.
Contrariando as críticas de uma suposta “postura mercantilista” da China, o país manteve-se como o segundo maior importador mundial durante 16 anos consecutivos, com importações de bens e serviços tendo ultrapassado US$ 15 trilhões durante 14º Plano Quinquenal (2021-2025). De acordo com as recomendações para a formulação do 15º Plano Quinquenal (2026-2030), adotadas na quarta sessão plenária do 20º Comité Central do Partido Comunista Chinês, em outubro passado, a China procurará o desenvolvimento equilibrado das suas importações e exportações. Isto demonstra o compromisso da China em compartilhar as oportunidades e benefícios do seu crescimento com os seus parceiros comerciais.2
Com um crescimento médio do PIB de 5,2% nos primeiros três trimestres de 2025 e de 4,5% no quarto trimestre, a China atingiu a sua meta oficial de crescimento anual de 5%. O seu PIB atingiu os 140,18 trilhões de yuans (cerca de US$ 20 trilhões) no ano, reafirmando ainda mais a sua posição como a segunda maior economia do mundo. Apesar dos desafios de ambientes interno e externo complexos, a economia avançou, alcançando novos saltos em termos de desenvolvimento de alta qualidade. Com isso os principais objetivos para o desenvolvimento econômico e social chinês foram atingidos em 2025, concluindo com sucesso o 14º Plano Quinquenal (2021-2025).3
Embora a China esteja avançando tanto no crescimento do PIB como na qualidade do seu desenvolvimento (com economia verde, inovação tecnológica e eliminação da pobreza) em 2025, persistem interpretações equivocadas sobre o seu desempenho, com alguns analistas de bancos ocidentais a criticarem a China por “exportar demais e consumir de menos”, enquanto outros subestimam o alcance atual das inovações tecnológicas do país. Na verdade, o rápido crescimento dos setores de alta tecnologia vem injetando uma nova vitalidade na economia chinesa. De janeiro a novembro de 2025, por exemplo, o valor agregado da manufatura de alta tecnologia aumentou 9,2% em termos anuais, enquanto o da fabricação de produtos digitais subiu 9,3%. Ademais, a fabricação de robôs industriais e circuitos integrados aumentou respectivamente 29,2% e 10,6% em relação ao ano anterior.4
Por fim, vale salientar que, apesar do crescimento do PIB chinês no quarto trimestre de 2025 ter abrandado um pouco, indicadores econômicos de dezembro já apontam para uma tendência de recuperação e estabilização. Consequentemente, a meta anual de crescimento do PIB de cerca de 5% para 2025 não apenas foi alcançada como também o país continua na trajetória rumo a um crescimento econômico sólido e resiliente em 2026, preparado para enfrentar com firmeza as incertezas conjunturais e ameaças protecionistas e geopolíticas que possam vir do exterior, ao mesmo tempo em que oferece um porto seguro para os investimentos estrangeiros e constrói pontes de diálogo para um mundo mais aberto, inclusivo e pacífico.5
Referencias:
1. Cf. IMF revises up China growth forecast for 2025 on policy support. Agência Xinhua, 10 Dec 2025. Disponível em: <https://english.sse.com.cn/news/newsrelease/voice/c/c_20251211_10801387.shtml1- Yearender: Setting the record straight, a retrospective look at China’s economy in 2025. Agência Xinhua, 24/12/2024. Disponível em: <https://english.news.cn/20251224/4d1e68f394df45808154c76f52b6d58a/c.html >.
2. Cf. China’s resilient foreign trade expands in 2025 amid global headwinds. China Economic Net. 15/01/2026. Disponível em: < http://en.ce.cn/main/latest/202601/t20260115_2702882.shtml>.
3 – Cf. China’s GDP grows 5 pct in 2025, hitting annual target. Agência Xinhua, 19/01/2026. Disponível em: https://english.news.cn/20260119/9a6d7abff4144c24aab8b84dccae3581/c.html#:~:text=BEIJING%2C%20Jan.%2019%20(Xinhua,percent%2C%20official%20data%20showed%20Monday.
4. Cf. Emerging signs from multiple sectors point to stable growth in China’s economy in 2025. By Li Xuanmin, Global Times, 18/01/2026. Disponível em: <https://www.globaltimes.cn/page/202601/1353530.shtml>.
5. Cf. China: economy set to extend steady growth trajectory. Zhou Lanxu and Ouyang Shijia, China Daily | 17/01/2026. Disponível em: <https://www.chinadaily.com.cn/a/202601/17/WS696ac255a310d6866eb343c4.html>.
Autor:
José Nelson Bessa Maia, ex-secretário de Assuntos Internacionais do Governo do Ceará, mestre em Economia e doutor em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (UnB). Atualmente é consultor internacional.

