Por muito tempo, a presença materna esteve garantida no cuidado, mas ausente no registro. A cena é comum em álbuns de família: mães organizam, observam, capturam o momento mas raramente aparecem nele. Foi a partir dessa constatação que Maria Farinha, 37 anos, mãe e fundadora da marca Edita com a Maria, deu início a um projeto que hoje reposiciona a fotografia como ferramenta de pertencimento e memória afetiva em Portugal.
Formada em Arquitetura e Urbanismo, Maria sempre teve relação íntima com espaço, composição e narrativa visual. A fotografia, embora presente, ocupava um lugar secundário até que a maternidade trouxe uma pergunta incômoda: por que, mesmo vivendo intensamente os primeiros meses da filha, ela quase não existia nas imagens desse período?

O incômodo não era apenas pessoal. Ao revisitar sua própria infância, Maria reconheceu um padrão que se repetia a ausência de registros ao lado da própria mãe. A fotografia, naquele contexto, deixava de ser lembrança para se tornar lacuna.
A resposta não estava em câmaras melhores ou em registros mais frequentes, mas em autonomia. Maria percebeu que depender de terceiros para aparecer nas imagens reforçava uma lógica de invisibilidade. Decidiu, então, aprofundar-se no estudo da fotografia com telemóvel, explorando possibilidades que permitissem presença real, sem encenação e sem mediação externa.
Mais do que aprender a fotografar, ela passou a investigar como mulheres poderiam se libertar da posição fixa de observadoras da própria história. O resultado foi a criação de um método que une técnica acessível, olhar sensível e consciência de tempo elementos essenciais para registrar a vida como ela acontece.
O que começou como uma busca pessoal ganhou dimensão coletiva. A partir do método desenvolvido, Maria estruturou a Edita com a Maria, uma marca que ensina mães a se colocarem no centro das próprias narrativas visuais. A proposta rompe com a ideia de imagens perfeitas e valoriza registros espontâneos, imperfeitos e verdadeiros.
O impacto do trabalho se explica pela identificação imediata. Muitas mulheres reconhecem na fotografia não apenas uma lembrança, mas um gesto simbólico de existência. Ao aparecerem nas imagens, reafirmam presença, vínculo e continuidade.
Para Maria, cada fotografia construída dessa forma é um fragmento de legado. Um registro que comunica afeto sem precisar de palavras.
A atuação de Maria Farinha desloca a fotografia do campo técnico para o emocional. O telemóvel, objeto cotidiano, passa a ser entendido como instrumento de documentação da vida real não da vida idealizada. Seu método propõe um olhar mais gentil sobre o tempo, o corpo e a maternidade.
A formação em arquitetura se manifesta na precisão do enquadramento; a maternidade, na escolha do que merece ser lembrado. Essa combinação dá ao trabalho um caráter autoral, que dialoga com temas como identidade, memória e pertencimento.
Ao transformar uma ausência recorrente em proposta concreta, Maria Farinha contribui para uma mudança silenciosa, porém profunda, na forma como famílias constroem suas memórias. Seu trabalho não busca protagonismo estético, mas restituição simbólica.
Porque, no futuro, as imagens contarão histórias.
E, nelas, as mães também estarão.


