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quarta-feira, 12 de junho de 2024

No Al Gehma, todos os gatos são pardos.

Na sociedade moderna, tem pão e circo para todos os gostos: restaurantes, boates, praias, shows, cabarés, clubes, mas VIPs, celebridades ou pessoas politicamente expostas não podem frequentar qualquer ambiente, posto que, se são reconhecidos, é tumulto na certa. É por isso que existem ambientes exclusivos para artistas, bilionários, políticos (um para cada partido), esportistas, bicheiros etc. Policiais não podem ir a festas em comunidades e os malandros não pisam nos Clubes Militares. É cada um no seu quadrado! 

A boate Garanhão, inaugurada para atender machos alfa, héteros raiz e ogros, fechou por falta de clientes. Já o Barbie’s Bar bombou. É o preferido dos meninos indecisos e das moças com próstata – termo inclusivo – para tristeza das meninas femininas e fiéis ao gênero. O Pub PHB – Políticos Honestos de Brasília, nem saiu do papel. São nichos complexos e sofisticados!

Enquanto isso, Xantal (Efigênio), acabou no presídio feminino, contrariada. O juiz entendeu que no masculino causaria furor. É bonita, mas nem todos pensam assim. Para reduzir a pena, leu muitos livros e acabou fundindo a cuca. Teorizou a quadratura do círculo, o terraplanismo, o gênero neutro, e concluiu que o mundo é redondo, dá voltas e se encontra nas pontas. Por ser ótimo cabeleireiro e maquiador, as esposas dos policiais e dos carcereiros eram suas clientes e ganhavam de brinde o calendário Presidiário Gato do Mês, com fotos de detentos sarados. O trabalho, a leitura e o bom comportamento permitiram a progressão para o regime aberto. 

Seu cacho na vida e no crime teve mais sorte. José Silva, ou João Santos ou Pedro Lima (são vários nomes), teve seus processos arquivados por causa das centenas de homônimos. Na cozinha da Detenção, sua sopa de legumes ficou conhecida como suco quente de restos da geladeira e causou diarreias epidêmicas. Transferido para o Serviço Religioso da Detenção, assessorou pastor, padre, guia e pai de santo. Aprendeu muito, mas não abraçou uma fé específica. Em liberdade, tornou-se Conselheiro Espiritual.

Antes da prisão, a dupla agenciava rapazes e moças, aplicava golpes de encontros amorosos e extorquia homens carentes e incautos. O promotor Xavier exigiu, e o juiz Sansão os proibiu de se encontrarem e de frequentar certos ambientes.

José, João, ou Pedro, virou Francisco, o Frei Chico e fundou o TAP – Templo Ateu Poligâmicol. Também atende em domicílio homens, mulheres, queers, casais e outras tribos. Atende casais de homens, mulheres e mistos, esses mais raros. Não cobra pela assistência, aceita donativos e limpa as carteiras dos fiéis. Enricou, mas está numa sinuca de bico, pois sente desejos carnais, mas a nova versão de si mesmo, Conselheiro Espiritual, dificulta a galinhagem. Não é legal. Já o nome Efigênio, não soava bem. Uma carcereira vidente sugeriu Gilbert, e ele/ela montou o Chez Gilbert, salão chique e decorado com posters do Calendário Gato. O hair stylist afetado ganhou fama, fatura alto, mas vive só.

Eles não querem perder a liberdade, grana, fama e o estilo de vida, mas sentem saudades um do outro e também da vida mundana. No Chez Gilbert e no confessionário virtual do Templo Ateu Poligâmico, rolam mil fofocas e confidências. As pessoas se previnem contra golpes e fraude, mas basta boa lábia para entregarem os segredos mais íntimos e a senha do cartão de crédito. Todos compartilham travessuras para tornar a vida mais excitante. Afinal, qual a graça em ser sapeca se não puder contar a ninguém?

Correu a notícia de que um clube exclusivo será inaugurado com baile de máscaras. O Al Gehma tem ambiente estilo castelo árabe medieval, com Masmorras para tortura (pegação). Open bar, Banda B. O., cover do Village People, a dupla trans Sodoma e Gomorra com look do Kiss, além de strippers e a dançarina exótica que imita a Pitonisa do Oráculo de Delfos. Imperdível!

Charlene e Antoine chegaram cedo, esbarram-se e a química foi instantânea. Na Masmorra, partiram para a pegação e descumpriram a regra da casa: manter as máscaras. Surpresa!

  • João, José, Pedro, sei lá. Que maravilha te encontrar! Por que Charlene?
  • Antoine, Xantal ou Efigênio, agora sou Francisco, o Frei Chico, Conselheiro Espiritual, mas hoje vim de Charlene por causa das restrições judiciais.
  • Tá linda! Meu Gilbert é por causa do Salão. Aqui sou Antoine, mas serei sempre a sua Xantal.
  • Temos direito a 20 minutos na Masmorra. Vamos aproveitar ao máximo!
  • Tá legal. Depois voltamos à pista para dançar.

Quem nasceu para se ferrar, sempre se ferra e nunca vai a lugar algum. Mas no Al Gehma, ninguém é de ninguém, todos os gatos são pardos, ferrados e ferradores realizam suas fantasias e todos se divertem. No palco, Sodoma e Gomorra assassinavam hits de Glorya Gaynor, Liniker, Pablo Vittar e outros ícones do universo Queer enquanto as strippers agitavam o Pole Dance e a Pitonisa se requebrava num transe frenético. Parecia possuída.

  • Não podemos dar bandeira. Lembra da ordem judicial?
  • Fica frio, querido. Você conhece essas atrações?
  • Não, e você?
  • Foram ao Chez Gilbert para fazer cabelo, maquiagem e falaram dessa festa. A banda B. O. tem policiais e batedores de carteira. Sodoma é o delegado Nicanor e Gomorra é o promotor Xavier.
  • Nica e Xaxá? Quem diria? Onde arrumaram essas strippers?
  • São carcereiras e detentas em saidinha. A líder é a sargento Malú, da corregedoria.
  • Uau! E aquela dançarina demoníaca, a tchutchuca tresloucada?
  • Não reconheceu? É o Juiz Sansão, com mega hair, corpete e sete véus. Poderosa!
  • Caramba! Tá tudo dominado! Estou com fome. Vamos comer algo?
  • Qualquer coisa, menos sopa de legumes. Veio da Detenção. Suco quente de restos da geladeira.
  • Bem que eu reconheci o cheiro!
Laerte Temple
Laerte Temple
Administrador, advogado, mestre, doutor, professor universitário aposentado. Autor de Humor na Quarentena (Kindle) e Todos a Bordo (Kindle)

10 COMENTÁRIOS

  1. Com certeza, os ‘Al Gehma’s da vida são fadados ao sucesso.
    Excelente ideia hahahaha
    Parabéns Laerte, por nos trazer a criação dessas crônicas com esses personagens fictícios, ou não?

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