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sábado, 24 de fevereiro de 2024

Chuva, apagão, traição e dor de cabeça

Sexta-feira, 7 da manhã. Dudu levou a esposa a um hospital top de linha em procedimentos estéticos. Siri, melhor amiga de Thea, aguardava na recepção, mas só para xeretar e postar nas redes sociais. As amigas se cumprimentaram com aqueles beijinhos que os rostos nem se tocam, sorrisos amarelos, fizeram caras e bocas, trocaram dois dedinhos de prosa e Thea foi para o Centro Cirúrgico. Dudu disse que esperaria no quarto, mas foi com Siri na cafeteria do mezanino. Escolheram uma mesa atrás de enormes vasos com vastas folhagens. Siri é o apelido de Sidônia Carneiro. Também é o diminutivo de Sirigaita, a piriguete do grupo.

Dudu e Siri conversaram sobre os caminhos de cada um após o fim do breve relacionamento. Eles namoraram por um tempo, mas não deu certo. Aliás, foi Siri quem apresentou a amiga ao ex. Thea é certinha, metódica, carola e ele é da pá virada, mas advogado bem sucedido, graças aos clientes envolvidos em casos de corrupção, muitos dos quais ele mesmo intermediou. Siri é uma loira fatal, corpo escultural, bióloga e aracnóloga. Casou-se duas vezes e ambos os maridos morreram por picada de aranha venenosa. A loira enricou com as heranças milionárias.

Quatro horas e alguns cafés mais tarde, Dudu foi avisado do fim da cirurgia. Tudo correu bem. Ele e Siri pediram uma salada como almoço e voltaram para o quarto. Após longa espera, o médico disse que Thea está agitada, mas é normal. Ficará mais tempo na recuperação e só irá para o quarto à noite. O doutor recomendou repouso absoluto. Visitas só no dia seguinte. 

Dudu disse que iria aproveitar a tarde livre ver a reforma da casa de campo e convidou Siri para acompanhá-lo. Nem precisou insistir. A meteorologia prevê chuva forte, mas isso não preocupa. A casa fica à beira do rio e não passou por reforma porcaria nenhuma. Foi pretexto para estar a sós com a loira. Mal desceram do carro e o amasso começou. O intercurso teve início na varanda e terminou na sala. Não deu tempo para chegar ao quarto. Foi tão intenso que nem perceberam a ventania, os raios e o toró que se formava. 

O dilúvio e as consequências

De repente, a eletricidade pifou e tudo escureceu. Siri foi para a rede da varanda para relaxar e Dudu, peladão, foi até o carro pegar o maço de cigarro. Abriu a porta do motorista e esticou-se para alcançar o porta-luvas, no exato instante que um raio atingiu uma enorme jaqueira que caiu sobre o veículo. O terreno deslisou e árvore, carro e Dudu rolaram rumo ao rio. Siri buscava sinal no celular e viu passar um carro boiando e dentro dele um corpo nu.

Desnorteado e com forte dor de cabeça, Dudu abriu os olhos. O que aconteceu? Onde estou? Como vim parar aqui? Cadê a Siri? Por que estou pelado?

  • Ora, ora! Vejam quem acordou!
  • Que horas são? Quem é você? Onde estou? Cadê minhas roupas? Muito calor!
  • Calma! Não se preocupe com horas, meses, anos. A contagem do tempo aqui é bem diferente.
  • Eu me lembro da Siri, da chuva. Fui buscar o maço de cigarro e não lembro mais nada.
  • Deixa eu ajudar. Você foi buscar cigarro, um raio atingiu a árvore, o chão cedeu e a correnteza arrastou tudo rio abaixo, com você dentro do carro, e peladão.
  • Ninguém chamou o Resgate?
  • Muitas cidades ficaram sem luz, sem telefone, sem semáforos com o trânsito parado. E você ciscando com a melhor amiga da esposa, seu danadinho!
  • Poxa! Se alguém ficar sabendo, estou encrencado!
  • Se alguém ficar sabendo? KKK. Você ficou famoso, cara. Saiu até na TV. Não o seu rosto, mas a retaguarda, entende? A “buzanfa” de fora. Foi hilário!
  • Eu na TV? Pelado? Mas como, se não tinha ninguém por perto gravando?
  • O carro desceu o rio por uns cinco quilómetros. Muita gente registrou. Bombou no Tik Tok.
  • Preciso ligar para o hospital para ter notícias da minha mulher.
  • Aqui não tem telefone. Mas fica tranquilo. Ela está feliz. Herdou todos os seus bens e casou-se com um cirurgião plástico e foi morar no Canadá.
  • Como assim, herdou tudo? Quando foi isso? Eu estou aqui, vivinho da Silva!
  • Isso tem mais de um ano, no tempo terrestre, claro. Você acha que saiu vivo daquele carro?
  • Droga! Onde está a Siri? Quero dar uns amassos. Vem cá, o ar condicionado quebrou?

O assessor do anjo caído explicou que a casa do Dudu desabou com a Siri dentro. Ela chegou no Hades antes dele e está num bloco distante. Não existe ar condicionado nas profundezas e os hóspedes não têm regalias, muito menos visita íntima. É só masmorra, castigo e refeição à base de Miojo vegano, cerveja de soja e Diet Dolly sem gelo, tudo ao som de Caneta Azul. O apagão também teve efeito nas profundezas. Estão sem Metrô e quase nada funciona.

  • Vocês não tem ninguém aqui para consertar?
  • Tem, mas eles prometem, pouco fazem, atrasam muito e querem levar propina em tudo.
  • Conheço bem essa história.
  • E tem mais. Depois do apagão em São Paulo, um forte terremoto atingiu Brasília. Ninguém sobreviveu e ninguém foi lá para cima. Todos vieram direto para cá!
  • Por que vocês não anistiam essa turma e mandam embora?
  • O chefe tentou acomodar lá em cima, mas o Supremo disse que o lugar de políticos, empreiteiros, pessoal de planos de saúde, telefonia e concessionárias, é aqui mesmo. Está nas escrituras! E para piorar, a turma que veio de Brasília quer rever regras milenares e mudar tudo. Chegou um cara pregando democracia e eleição. Lançou-se candidato a príncipe das trevas e pediu cassação e inelegibilidade para o capeta. Tremenda dor de cabeça!
  • Você disse que Brasília foi destruída. O Brasil acabou? Está sem comando?
  • Que nada! Melhorou muito. É a 3a potência mundial, zero analfabetos, sem inflação, corrupção e criminalidade baixas, PIB elevado e 2 prêmios Nobel. O problema agora é aqui embaixo. Até o tridente do chefe eles roubaram. Como vocês aguentaram esses caras? Logo vai ter eleição, nós contra eles. Ganhe quem ganhar, o inferno nunca mais será o mesmo!
Laerte Temple
Laerte Temple
Administrador, advogado, mestre, doutor, professor universitário aposentado. Autor de Humor na Quarentena (Kindle) e Todos a Bordo (Kindle)

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