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quinta-feira, 27 de fevereiro de 2025

Escala

A vida seguia corriqueira e corrida, como de costume, até lembrar que aquela semana seria diferente, pois meu irmão me visitaria numa escala rápida de viagem.

Talvez as atribulações laborais me impediriam de perceber o quanto era um momento que me felicitava, afinal, teria um pouco de família na minha vidinha solitária no meio de tanta gente o tempo todo.

Durante a semana, nada mais era que um recado: “Meu irmão chega sexta feira, às dezenove e trinta e cinco”. Diferente dos compromissos técnicos e insossos, porém, era um lembrete agradável.

Conversei no telefone com minha mãe no dia, que me pediu para organizar o apartamento a fim de recebê-lo da melhor maneira possível.

Desembarcou em segurança no horário previsto e, até vir recebê-lo na entrada do apartamento, acompanhei-o pelo aplicativo e pedi para que admirasse Brasília durante sua corrida até em casa.

Chegou, alto, ruivo, forte e com uma camisa social cor vinho, calça escura e sapato formal. Estava elegante, aquele pequeno ser que vi crescer e segurei nos braços. Agora é mais fácil que ele me carregue.

Jamais me acostumarei com seu crescimento que acompanhei em parcelas. Imaginava, quando criança, como seria meu irmão como crescesse e sequer saberia que não veria esse processo diária e vagarosamente. Acompanho de longe, como num camarote, onde apenas se enxergam nuances e nada se alcança.

Não presenciei convivências, diálogos, cotidiano.

Ver que deixei você criança, retornar para uns dias de férias e perceber que, repentinamente, se tornou um homem reflete todo o tempo que se perde enquanto estou longe, Léo.

Retirou a bagagem do porta-malas e subimos para o apartamento. Pedi para que não reparasse a bagunça, ele gostou das decorações singelas.

Abraçamo-nos, conversamos, tiramos foto para nossos pais. Colocamos uma roupa mais confortável e jantamos num pequeno bar na quadra de casa, daqueles mais despojados e moderninhos, que possuem cadeira de sol e petiscos dos mais variados.

Dialogamos sobre novas mudanças, preferências, impressões sobre a cidade, descobertas e previsões sobre futuro. Trocamos ideias sobre velhas experiências. Falamos sobre nossa família, como aquela conversa de irmãos, com sua identificação particular.

Por vezes, apenas olhávamos para o nada, enxergávamos longe sem sair do lugar. O silêncio manifestava a simples oportunidade de termos a companhia um do outro que, por si, já se bastava em alegria inexplicável.

Voltamos, Léo estava cansado, ajustamos o despertador para bem cedinho e dormimos.

No dia seguinte, resolvemos tomar café da manhã no aeroporto, pois ficaríamos menos preocupados com o horário do embarque. No caminho, convidei-o para passear algum final de semana. Ele concordou.

Aproveitamos a oportunidade especial para irmos àquela cafeteria famosa, bem clichê. Pedi um café expresso com chantilly e um croissant e Léo comeu um café simples e sanduiche. Estava frio e ele me emprestou seu casaco, também bordô. Conversamos um pouco mais sobre planos e riscos.

A hora da partida chegou. Ao subirmos a escada rolante, um rapaz provavelmente atrasado, correu à nossa frente.

Trocamos um último abraço, devolvi o casaco e ele foi para a área do embarque, onde não posso mais entrar. Voltou para me entregar o copo de café que o proibiram de levar.

Aproveitamos para nos despedirmos mais uma vez.

Permaneci observando-o até que ele desaparecesse da minha vista. Como se soubesse, olhou para mim, sorriu e acenou lá de longe.

Aproveitei sua ausência para chorar de saudade e desejar sinceramente, numa imaginação levemente egoísta, que tivéssemos errado o horário do voo já decolado ou este fosse cancelado só para passarmos mais tempo juntos.

Mas você deve seguir sua trajetória, Léo, e estarei sempre ao seu lado, ainda que silenciosamente. Seu copo de café está aqui na estante de casa, esperando ser entregue de volta.

Autora:

Marize Teixeira Vitório 

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