Jornal Tribuna

O Supermercado Virou Farmácia. E Agora?

Por Gero.Health·
O Supermercado Virou Farmácia. E Agora?

Tem uma cena que já virou comum nos Estados Unidos e que está chegando com força total ao Brasil: você entra no mesmo lugar para comprar arroz, frango, shampoo e buscar seu remédio controlado. O Walmart fez isso virar plataforma, integrando GLP-1, nutricionista virtual, inteligência artificial e farmácia física em um único ecossistema. Aqui, o varejo alimentar e digital está trilhando o mesmo caminho, só que com sotaque tupiniquim e, como sempre, com velocidade assustadora.

O Mercado Livre Não Vende Só Tênis

O Mercado Livre já opera o Mercado Pago, com crédito, conta digital e cartão. Agora avança com força na vertical de saúde e bem-estar, incluindo medicamentos com entrega expressa via Mercado Envios. A empresa tem hoje uma base de dezenas de milhões de usuários ativos no Brasil e logística capilar que cobre praticamente todos os municípios do país. Transformar esse ativo em ponto de dispensação de medicamentos com rastreabilidade, prescrição digital integrada e entrega no mesmo dia é uma equação que o Mercado Livre já começou a resolver. O paralelo com o Amazon Pharmacy nos EUA é óbvio e inevitável.

iFood, Rappi e a Farmácia nos 30 Minutos

O iFood já entrega medicamentos de farmácias parceiras há alguns anos, mas o movimento que está se consolidando agora é diferente: não se trata mais de intermediar o pedido de uma farmácia independente. A lógica agora é de integração vertical, onde a plataforma começa a controlar o estoque, o sortimento e até a jornada clínica do usuário. A Rappi já opera farmácias próprias em algumas cidades da América Latina. No Brasil, a pressão para seguir esse modelo cresce na proporção direta em que o consumidor descobre que pedir um remédio com dois cliques é mais prático do que enfrentar fila.

Redes de Supermercado: Do Açougue à Dispensação

Grupos como Pão de Açúcar (GPA), Carrefour Brasil e Assaí Atacadista têm redes físicas que, em muitos casos, já convivem com farmácias âncoras nos mesmos corredores ou galerias. O passo seguinte, operar farmácia própria integrada à loja de alimentos, é uma extensão natural de estratégia de tráfego e de margem. Nos EUA, Walmart e Kroger já provaram que esse modelo aumenta a frequência de visitas e o ticket médio. No Brasil, onde o consumidor de baixa e média renda concentra suas compras em poucos pontos de consumo, essa lógica é ainda mais poderosa, porque resolve vários problemas em uma só parada.

A Dimensão Geriátrica que Quase Ninguém Está Vendo

Aqui entra o ponto que mais me interessa como analista do mercado de saúde para populações que envelhecem. O idoso brasileiro é o usuário mais intenso de medicamentos de uso contínuo do país, muitas vezes polimedicado, com baixa mobilidade e altíssima dependência de cuidadores para acessar serviços. Um ecossistema de varejo que integra compras de alimentos, entrega de fraldas geriátricas, suplementos proteicos e medicamentos de uso contínuo em uma única jornada digital resolve uma dor brutal para essa população e para seus familiares. O Walmart fez isso nos EUA ao casar GLP-1 com nutrição e farmácia. No Brasil, quem fizer esse movimento com foco na silver economy vai capturar uma fatia de mercado que cresce em ritmo acelerado e que ainda é mal atendida pelas soluções existentes.

O Que Está em Jogo Regulatório

A Anvisa e o CFF (Conselho Federal de Farmácia) monitoram com atenção esse movimento. Existe um arcabouço regulatório que exige responsável técnico farmacêutico presencial em cada ponto de dispensação, o que impõe fricção real à operação de farmácia dentro de supermercado ou exclusivamente via aplicativo. A prescrição digital integrada ao RNDS (Rede Nacional de Dados em Saúde) ainda está em maturação. Mas esses são freios técnicos e burocráticos, não bloqueios permanentes. O capital já está se movendo na direção de quem conseguir resolver essas equações regulatórias primeiro.

Uma Só Frase Para Resumir

O varejo aprendeu que quem controla a frequência de compra controla a relação com o consumidor. Saúde é a categoria com maior frequência de compra obrigatória da vida de qualquer pessoa. A farmácia sempre soube disso. O supermercado, o marketplace e o aplicativo de entrega estão apenas chegando atrasados a uma festa que a drogaria brasileira dominou por décadas. Só que dessa vez, eles chegam com dados, logística e capital que a farmácia de esquina nunca teve.

Willians Fiori

Referência brasileira em Mercado de Longevidade desde 2003

Professor da Pós Graduação em Geriatria, Gerontologia e Mercados do Hospital Israelita Albert Einstein

Professor Convidador Hcor Academy – Pós Graduação em Gerontologia

Professor convidado da FIA, UFRJ, PUC SP, INSPER e FAAP

Autor dos livros Diversa Idade, Brasil 2060 e O Cérebro que Podemos Proteger

Citado no livro Longevity Hub, do MIT Massachusetts Institute of Technology, como principal especialista brasileiro no tema

Premiado pela ONU Latin America e reconhecido com o Selo Direitos Humanos da Prefeitura de São Paulo.

Vencedor do Prêmio Bstory Longevidade

Membro do Conselho Europeu de Silver Economy

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