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Burnout parental e a nova exaustão das famílias

Por Gero.Health·

Burnout parental e a nova exaustão das famílias

A parentalidade contemporânea virou uma operação logística sem centro de comando, e muita gente está chamando de amor aquilo que já virou sobrecarga

Tem uma frase que muita gente diz rindo, no meio de uma conversa qualquer, mas que deveria acender um alerta enorme nas famílias, nas empresas e nas políticas públicas:

“Eu só queria desaparecer por duas horas.”

Não é falta de amor pelos filhos. Não é ingratidão. Não é drama. Muitas vezes é exaustão mesmo. Daquela que começa no corpo, passa pela cabeça e termina no olhar vazio de quem ama profundamente, mas não aguenta mais carregar tudo ao mesmo tempo.

Acorda cedo. Prepara lanche. Responde mensagem da escola. Trabalha. Paga conta. Resolve reunião. Compra remédio. Marca consulta. Cuida da casa. Leva no treino. Busca na aula. Ajuda na lição. Tenta ser presente. Tenta ser produtivo. Tenta ser paciente. Tenta ser saudável. Tenta não explodir. Tenta não se culpar por estar cansado.

A família contemporânea virou uma operação logística sem centro de comando. E, como toda operação mal distribuída, alguém sempre paga a conta com o corpo.

Segundo a PNAD Contínua do IBGE, em 2022 as mulheres dedicavam, em média, 21,3 horas semanais aos afazeres domésticos ou ao cuidado de pessoas. Os homens dedicavam 11,7 horas. A diferença era de 9,6 horas por semana. O mesmo levantamento mostrou que 92,1% das mulheres com 14 anos ou mais realizavam essas atividades, contra 80,8% dos homens.

Esse dado ajuda a explicar muita coisa.

Quando falamos de burnout parental, não estamos falando apenas de cansaço comum. Cansaço comum melhora com descanso. Burnout parental é outra coisa. É a sensação de estar emocionalmente drenado pelo papel de mãe ou pai. É quando a pessoa começa a se sentir distante da própria parentalidade, irritada, culpada, sem energia, sem prazer e, muitas vezes, com vergonha de admitir que a experiência de cuidar se tornou pesada demais.

Um estudo internacional publicado na revista Affective Science analisou 17.409 pais e mães em 42 países e mostrou que o burnout parental existe em diferentes culturas, mas se manifesta com mais força em contextos onde a parentalidade é vivida de forma mais individualizada e pressionada por altos padrões de desempenho. Em outras palavras, quanto mais a sociedade vende a ideia de que cada família precisa dar conta de tudo sozinha, maior tende a ser a exaustão.

No Brasil, essa pressão ganha contornos próprios. Cuidar de filhos não acontece em um vácuo. Acontece dentro de casas com renda apertada, jornadas longas, trânsito, escola cara ou insuficiente, falta de creche, redes de apoio frágeis, avós sobrecarregadas, pais envelhecendo, trabalho que invade a noite pelo celular e uma cultura que ainda transforma a mãe na grande gerente invisível da vida doméstica.

Não é por acaso que tantas famílias estão espremidas entre filhos pequenos, pais idosos, contas, trabalho, saúde mental e ausência de suporte real. Esse é o retrato da chamada geração sanduíche, formada por adultos que cuidam dos filhos enquanto também começam a cuidar dos próprios pais. E, no meio dessa travessia, muita gente ainda escuta a velha frase: “Mas todo mundo dá conta.”

Não. Nem todo mundo dá conta.

Alguns apenas aprenderam a parecer funcionais enquanto desmoronam por dentro.

No livro Diversa idade, defendo que as gerações não convivem apenas nos discursos bonitos sobre família. Elas convivem na cozinha, no trânsito, no hospital, no boleto, na escola, no grupo de WhatsApp e nas emergências que nunca entram na agenda corporativa. É ali, no cotidiano mais banal, que a longevidade deixa de ser estatística e vira pressão concreta sobre a vida das pessoas.

O Censo 2022 do IBGE mostrou que o Brasil já tinha 32,1 milhões de pessoas com 60 anos ou mais, o equivalente a 15,6% da população. Em 2010, eram 20,6 milhões. Esse crescimento de 56% em doze anos mostra que o envelhecimento populacional não impacta apenas a previdência, os hospitais e o consumo. Impacta também a rotina das famílias que precisam cuidar de crianças e, ao mesmo tempo, acompanhar pais e avós em consultas, exames, quedas, medicações, solidão e dependência progressiva.

A parentalidade, portanto, deixou de ser apenas uma relação entre adultos e crianças. Ela passou a fazer parte de uma engrenagem intergeracional muito mais ampla. Cuidar dos filhos hoje muitas vezes acontece enquanto se cuida de pais idosos, se sustenta a casa, se tenta manter o emprego, se responde mensagem fora do horário e se administra a culpa de nunca estar inteiro em lugar nenhum.

E aí entra uma discussão que o mundo corporativo ainda evita.

Empresas gostam de falar sobre produtividade, engajamento, cultura e alta performance. Mas muitas ainda fingem que seus funcionários não têm filhos, pais, escola, doença, cuidado, crise familiar e vida fora da tela. A agenda corporativa continua tratando emergência doméstica como ruído individual, quando, na verdade, ela é parte central da vida adulta contemporânea.

Falar de burnout parental é falar de saúde mental, trabalho, gênero, longevidade e política de cuidado. É entender que a família não é uma máquina infinita de resolver problemas. Família também cansa. Família também adoece. Família também precisa de estrutura.

A pergunta que precisamos fazer não é apenas por que mães e pais estão tão exaustos. A pergunta mais honesta talvez seja: que tipo de sociedade nós construímos para que amar alguém tenha se tornado uma jornada tão solitária?

Porque parentalidade precisa de afeto, sim. Mas também precisa de tempo, rede, divisão justa, escola funcionando, empresa sensível, políticas públicas, corresponsabilidade e permissão social para dizer: hoje eu não estou dando conta.

Isso não diminui o amor.

Humaniza o cuidado.

E talvez seja esse o ponto mais difícil de aceitar. O amor pelos filhos não torna ninguém inesgotável. Amar muito não significa aguentar tudo. Cuidar bem não deveria exigir o apagamento de quem cuida.

O burnout parental é um aviso.

Não sobre o fracasso das famílias.

Mas sobre o fracasso de uma sociedade que terceirizou o cuidado para dentro das casas e depois chamou exaustão de normalidade.

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Willians Fiori

Especialista em Mercado de Longevidade desde 2003

Professor Pós-Graduação em Geriatria, Gerontologia e Mercados — Hospital Israelita Albert Einstein

Professor Convidado: FIA, UFRJ, PUC-SP e INSPER, FAAP

Autor dos Livros: Diversa-Idade, Brasil 2060,O cérebro que podemos proteger

Citado no livro Longevity Hub do MIT (Massachusetts Institute of Technology) como principal especialista brasileiro no tema

Premiado pela ONU Latin America e detentor do Selo Direitos Humanos da Prefeitura de São Paulo

Premiado pelo Premio Bstory Longevidade
Membro do conselho Europeu de Silver Economy

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