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Avós não são suporte gratuito da sociedade

Por Gero.Health·

Avós não são suporte gratuito da sociedade

Por trás de muitas famílias que conseguem trabalhar, estudar e sobreviver, existe uma avó reorganizando a própria vida sem que ninguém coloque isso na conta

Toda família brasileira conhece essa cena.

A mãe está atrasada para o trabalho. O pai tem reunião. A escola mandou mensagem dizendo que não vai ter aula. A criança acordou com febre. A diarista faltou. A creche fechou mais cedo. O boleto venceu. O trânsito travou. O chefe ligou. A vida apertou.

E aí alguém solta a frase mágica:

Liga para a avó.

A avó busca. A avó leva. A avó esquenta a comida. A avó fica no pronto atendimento. A avó passa a tarde com a criança. A avó dorme no sofá da sala. A avó muda o horário do médico. A avó cancela o encontro com as amigas. A avó abre mão da caminhada. A avó reorganiza a própria rotina para que todo mundo consiga seguir com a sua.

Quase sempre isso vem embalado em carinho.

“Ela ama ficar com os netos.”

Sim, muitas amam.

Mas amor não apaga cansaço.

O Brasil tem uma dívida silenciosa com suas avós. Elas sustentam parte invisível da engrenagem familiar, social e econômica do país. Sem elas, muitas mães não conseguiriam trabalhar. Muitos pais não conseguiriam manter a rotina profissional. Muitas crianças ficariam sem cuidado. Muitas famílias entrariam em colapso diante de qualquer imprevisto cotidiano.

O problema é que esse cuidado quase nunca aparece como trabalho. Aparece como afeto. Como disponibilidade natural. Como vocação feminina. Como “coisa de avó”.

E é exatamente aí que mora a armadilha.

Segundo dados da PNAD Contínua do IBGE, em 2022 as mulheres dedicavam, em média, 21,3 horas por semana aos afazeres domésticos ou ao cuidado de pessoas. Os homens dedicavam 11,7 horas. A diferença era de 9,6 horas semanais. No mesmo levantamento, 92,1% das mulheres com 14 anos ou mais realizavam essas atividades, contra 80,8% dos homens.

O cuidado no Brasil tem gênero.

Tem idade.

Tem classe social.

Tem raça.

E tem muita invisibilidade.

Quando olhamos para as avós, essa conta fica ainda mais complexa. Muitas já trabalharam a vida inteira. Criaram filhos. Cuidaram da casa. Enfrentaram jornadas duplas e triplas. Chegaram à maturidade esperando algum espaço para si mesmas, mas continuam sendo convocadas como se a vida delas estivesse permanentemente disponível para resolver a vida dos outros.

É claro que há amor nessa relação.

Há beleza.

Há memória.

Há transmissão de valores.

Há colo, história, comida de domingo, conselho, risada, afeto e pertencimento.

Mas existe uma diferença enorme entre participar da vida dos netos e ser transformada em estrutura fixa de cuidado. Uma coisa é escolher estar presente. Outra é ser acionada sempre que o sistema falha. E no Brasil o sistema falha todos os dias.

Falha quando falta creche.

Falha quando a escola não tem estrutura para acolher a realidade das famílias.

Falha quando empresas fingem que seus funcionários não têm filhos, pais idosos, doenças, emergências e vida fora do crachá.

Falha quando a paternidade ainda é tratada como ajuda eventual, enquanto a maternidade vira gestão permanente de crise.

Falha quando a sociedade transforma avós, sobretudo avós mulheres, em rede de apoio automática.

No livro Diversa idade, defendo que longevidade não é apenas viver mais. É entender como as gerações se atravessam no cotidiano. Na cozinha, na escola, no hospital, no supermercado, no grupo da família, no quarto da criança e também no silêncio de quem cuida sem reclamar.

A longevidade nos obriga a olhar para uma pergunta desconfortável: quem está pagando, com tempo, corpo e energia, a conta da falta de rede de apoio?

Muitas vezes, são as avós.

E tempo de vida não é favor pequeno.

É parte da própria existência.

Quando uma avó passa três tardes por semana cuidando de um neto, ela não está apenas “dando uma força”. Ela está entregando horas da sua maturidade. Está abrindo mão de escolhas. Está usando energia física, emocional e mental. Está assumindo responsabilidade. Está, muitas vezes, sustentando a possibilidade de outra geração trabalhar.

Isso precisa ser nomeado.

Porque aquilo que não é nomeado não é reconhecido. E aquilo que não é reconhecido tende a ser explorado.

A romantização da avó cuidadora é uma das formas mais delicadas de apagamento social. Como é bonito, ninguém questiona. Como envolve afeto, ninguém mede. Como parece natural, ninguém remunera, ninguém redistribui, ninguém limita.

Mas amor sem escolha vira peso.

Cuidado sem limite vira exaustão.

Presença sem reconhecimento vira exploração.

Não se trata de afastar avós dos netos. Pelo contrário. Relações intergeracionais são uma das maiores riquezas humanas. Crianças que convivem com avós acessam memórias, histórias, paciência, vínculos e repertórios que nenhuma tela oferece. Avós também podem encontrar nos netos alegria, movimento, sentido e renovação.

O ponto não é negar o vínculo.

É proteger a pessoa por trás do papel.

Avó pode ser colo, memória, afeto e presença. Mas avó não pode virar solução automática para a ausência de política pública, para a culpa materna, para a omissão paterna, para empresas insensíveis ou para famílias que confundem disponibilidade com obrigação.

A nova longevidade precisa incluir o direito das avós viverem a própria vida.

Elas também podem querer estudar, viajar, namorar, descansar, empreender, cuidar da saúde, ter silêncio, dançar, fazer planos, dizer não, dormir sem culpa, passar um fim de semana sem serem acionadas e construir uma maturidade que não esteja sempre a serviço dos outros.

Avós não são plano B da sociedade.

São pessoas inteiras, com desejos, corpo, história, limites e direito de viver a própria longevidade.

Talvez esteja na hora de trocar a pergunta.

Em vez de perguntar apenas se a avó pode ficar com a criança, talvez devêssemos perguntar se ela quer, se ela pode, se ela está bem, se isso é justo, se há divisão, se há limite e se alguém está reconhecendo o valor daquilo que ela entrega.

Porque cuidar pode ser amor.

Mas só continua sendo amor quando também existe escolha, respeito e reconhecimento.

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Willians Fiori

Especialista em Mercado de Longevidade desde 2003

Professor Pós-Graduação em Geriatria, Gerontologia e Mercados — Hospital Israelita Albert Einstein

Professor Convidado: FIA, UFRJ, PUC-SP e INSPER, FAAP

Autor dos Livros: Diversa-Idade, Brasil 2060,O cérebro que podemos proteger

Citado no livro Longevity Hub do MIT (Massachusetts Institute of Technology) como principal especialista brasileiro no tema

Premiado pela ONU Latin America e detentor do Selo Direitos Humanos da Prefeitura de São Paulo

Premiado pelo Premio Bstory Longevidade
Membro do conselho Europeu de Silver Economy

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