Ela não sabe o que é diminuir Pace, ela quer ( Peace)
Ela não sabe o que é diminuir Pace, ela quer ( Peace)
A nova religião da performance acorda às 4h30 da manhã.
Ela corre 10 quilômetros, toma banho gelado, medita, faz journaling, posta no LinkedIn e ainda toma café olhando para o nascer do sol como se a vida fosse um comercial de banco digital.
Bonito.
Funciona para muita gente.
Mas talvez a pergunta mais honesta seja outra.
Funciona para quem?
A gente vive numa época em que confundiu bolha com mundo. Achamos que o nosso pequeno aquário social é o oceano inteiro. E não é.
Existe uma diferença enorme entre acordar cedo por escolha e acordar cedo porque a vida mandou.
A mulher que levanta às 3h da manhã para pegar três ônibus e limpar a casa dos outros já fez mais esforço físico antes das 8h do que muito atleta de aplicativo faz na semana inteira.
O motorista que precisa estar no ponto às 4h para começar a jornada não está preocupado em bater pace. Ele está preocupado em não dormir no volante, pagar as contas e voltar inteiro para casa.
A atendente de farmácia que abre loja cedo, passa o dia em pé, escuta reclamação, sorri por obrigação e ainda pega condução lotada à noite talvez não precise de um desafio fitness. Talvez precise de descanso.
O CrossFit da vida real não tem mensalidade cara, camiseta bonita nem foto com luz boa.
Ele se chama sobrevivência.
O problema não é acordar cedo. O problema é transformar privilégio em manual moral.
É vender disciplina como se todos partissem do mesmo lugar.
É romantizar a rotina dos que podem escolher, esquecendo a rotina dos que simplesmente não têm escolha.
Claro que atividade física faz bem. Claro que cuidar do corpo importa. Claro que acordar cedo pode ser poderoso.
Mas existe uma arrogância escondida quando a gente trata a vida dos outros como falta de vontade.
Nem todo cansaço é preguiça.
Nem todo silêncio é falta de ambição.
Nem toda pessoa que não corre às 5h está desistindo de si mesma.
Às vezes ela só está tentando chegar viva ao fim do dia.
E talvez maturidade seja isso.
Entender que a nossa rotina pode até ser inspiradora.
Mas ela não é universal.
Willians Fiori.