Jornal Tribuna

O menino da entrevista

Por ALINY KRUGEL·
O menino da entrevista

Menino, finório, chegou sorridente em um dia de primavera. Seu olhar escondia um passado atribulado; suas vestes denunciavam o seu pavor. Era magro, de pele escura, dentes da frente separados, marcado por traços de muitas origens. Havia uma cicatriz perturbadora em sua mão que chamou minha atenção por vários minutos, formato de orifício oval com cicatrizes de pontos mal aplicados. Fiquei curiosa, tomei um tempo para imaginar o que poderia ter ocorrido. Aquele jovem trazia na bagagem uma vida de lutas e tristezas e um sorriso melancólico.

Entrou, estendeu a mão em minha direção e a apertei em sinal de boa-fé. Para mim, era apenas mais uma entrevista. Para aquele menino, porém, parecia ser tudo o que lhe restava. Já realizei muitas entrevistas profissionais, porém essa era diferente.

Enquanto falava sobre sua trajetória profissional, eu o escutava atentamente, mas aquela cicatriz ainda era o centro das minhas atenções, não sei em que momento a percebi, mas não me saiu da cabeça. No fundo, avaliava se deveria contratá-lo ou não. Prestava atenção às suas palavras, mas percebia algo além delas — algo que ainda não havia sido dito, o modo de se vestir também não facilitava para minha decisão, pois estava de forma informal.

Ao longo da entrevista, continuei a fitá-lo sem querer julgá-lo. Às vezes um papel amassado possui uma grande história. Eu que gosto de uma boa leitura, aproveito para tentar ler as pessoas também, como falam, como se posicionam, até mesmo como andam, li uma vez que em PNL se a pessoa olha para esquerda está buscando lembranças e se olha para direita poderá estar mentindo. Eu pisco bastante, ainda mais se fico nervosa, daria muito trabalho para PNL. Aquele menino tinha apenas os olhos bem abertos, assustado.

Mas eu deveria mesmo contratá-lo? Por que dar uma oportunidade a um desconhecido, sem referências, sem garantias? Eu sabia tão pouco sobre ele. E, ainda assim, havia algo em seu olhar: um pedido silencioso, quase um grito contido de quem precisava ser visto além da aparência.

Naquele instante, pensei nos riscos, nas responsabilidades e no peso daquela escolha. Pensei também em quantas portas já haviam sido fechadas para ele antes mesmo de tentar entrar. Talvez aquela fosse apenas mais uma. Ou talvez fosse a única. Decidir sobre o futuro de alguém nunca é fácil, sei que quando contratamos damos uma oportunidade para pessoa crescer, mas o que a pessoa faz com isso já não é nossa responsabilidade.

A decisão não era simples. Contratar alguém é sempre apostar no que ainda não se conhece. E, naquele momento, eu me perguntava se estava diante de um problema ou de uma possibilidade. Acredite, na maioria das vezes são problemas, pois não lidamos apenas com o trabalhador, mas com tudo que ele transporta com ele, todo um passado, um caminho que o trouxe até nós, para algumas pessoas esse trajeto é liso e reto, mas para a maioria são caminhos atribulados, esburacados com rampas e tobogãs, sem contar as pedras no caminho.

Então decidi dar-lhe uma chance. Não apenas um emprego, mas a oportunidade de recomeçar, de escrever uma nova história com as próprias mãos. Confesso que não foi fácil, tivemos alguns problemas iniciais, atrasos, faltas injustificáveis, sumiços no trabalho, eu observava de perto, cheguei a redigir seu aviso prévio por algumas vezes, mas algo me dizia que valia a pena insistir, tinha certeza de que tudo não poderia se encerrar com assinatura de um simples papel.

Hoje, orgulho-me da pessoa que ele se tornou. Cresceu, amadureceu e venceu muitos dos próprios fantasmas, tornou-se um dos pilares da empresa, além de um excelente colaborador, um excelente ser humano com sonhos e lutas diárias, possui alguns leões, mas que não o deixa desanimar. Ainda guarda um lado obscuro — mas, pensando bem, talvez todos nós guardemos.

Aliny Krugel

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