O pôr do sol que eu não vi

Os dias têm passado depressa demais na minha vida. Saio cedo, volto tarde, e entre um compromisso e outro sigo no eterno vai e vem do trânsito. Carros, semáforos e buzinas parecem ditar o ritmo da minha vida. Muitas vezes, sinto que vivo no automático, em modo sobrevivência.
Outro dia, parada em um semáforo na BR-101 em Carapina, na Serra, fiz algo que há muito tempo não fazia: olhei para cima. Enquanto o sinal não abria, fiquei observando um pôr do sol avermelhado. A luz alaranjada escorria pelos vidros dos carros e transformava o trânsito em algo quase bonito. Era um daqueles fins de tarde de outono capazes de fazer a gente esquecer, por alguns segundos, a fila de carros e os compromissos do dia. Minha bexiga estava cheia; precisava chegar logo em casa. Ainda assim, quem eu deveria obedecer? Meu corpo pedindo urgência ou meu coração pedindo permanência? Foi então que me dei conta de uma coisa estranha: já era junho, já estava precisando me agasalhar no início da manhã, e eu ainda não tinha parado para admirar aquele pôr do sol próximo ao Monte Mestre Álvaro que todo ano me encanta. Sem perceber, deixei que os dias passassem por cima daquele ritual silencioso que todo outono me oferecia. Ou talvez eu tenha permitido que a correria o roubasse.
Como é possível correr tanto atrás da vida e não ter alguns minutos para contemplar algo tão simples e tão belo? O sinal abriu, mas por alguns segundos permaneci imóvel, como se aquele céu tivesse me prendido ali. Estou sempre ocupada, atrasada para algum lugar e pensando na próxima tarefa, lembrei até do coelho branco do conto “Alice no país das maravilhas”, sempre tão apressado. Enquanto isso, o sol continua se despedindo todas as tardes, indiferente à minha pressa.
Naquele momento, surgiu uma pergunta: será que eu deveria colocar na agenda do próximo ano um compromisso para observar o pôr do sol de outono?
Será que chegamos ao ponto de precisar agendar um pôr do sol?
Talvez no próximo ano eu coloque isso na agenda. Não porque o sol precise de hora marcada, mas para lembrar a mim mesma e estar presente quando ele aparecer.
No próximo outono, espero encontrar o céu antes que ele escureça. E, quem sabe, encontrar um pouco de mim mesma junto com ele.