Jornal Tribuna

Midas, Medusa e o acaso

Por Laerte Temple·
Midas, Medusa e o acaso

Há quem diga que nada acontece por acaso. Porém não devemos menosprezar a importância do que acontece, sim, por acaso. O acaso não acontece por acaso.

Foi por acaso que Alexander Fleming, em 1928, deixou o conteúdo duma proveta criar bolor e descobriu a Penicilina, a cura para infecções bacterianas. Edward Murphy, engenheiro espacial, em 1949, por acaso, viu o técnico instalar sensores de forma incorreta e disse: “Se houver uma maneira de fazer errado, ele o fará”. É a famosa Lei de Murphy. Também foi por acaso que Eva Dias engravidou, ou pelo menos foi o que ela disse aos pais.

Mara Kutaya estava com um homem nos fundos de um depósito pedindo socorro quando Inocêncio surgiu do nada, com um Pé de Cabra em mãos e disse: “com licença”. O homem saiu em disparada, com a calça na mão. Ele só pediu licença porque queria abrir uma caixa e furtar produtos para vender no Metrô. O homem se assustou, fugiu e a moça foi salva. Por acaso.

Em seguida, surgiu Giuseppe Careta, pai da moça. Ele é Senador e convidou Inocêncio para ser seu suplente na próxima eleição. Foi eleito e o herói, de invasor de armazém, tornou-se Assessor Parlamentar. Tudo obra do acaso.

O Senador foi à uma festa suspeita, com tudo pago, inclusive o que não se deve mencionar. Vazaram vídeos, houve CPI, não deu em nada, mas Giuseppe Careta caiu em desgraça. A esposa pediu divórcio, rapou a fortuna, ele infartou e morreu. Em menos de seis meses, o invasor de armazém tornou-se Senador e Mara Kutaya sua Chefe de Gabinete. Tudo por acaso.

Inocêncio é semianalfabeto, vaidoso, tem ótima lábia, mas é manipulável. Mara Kutaya o fez propor medidas provisórias populistas e demagógicas, aprovadas mediante liberação de verbas: o Vale Tudo, cartão de débito para qualquer fim; a Jornada Flexível – o cidadão escolhe se e quando quer trabalhar; Férias de 60 dias para todos, não só para juízes; Salário-Mínimo de R$ 5.000,00, sem imposto e uma infinidade de penduricalhos para membros dos três Poderes, colocando-o no páreo para a eleição presidencial.

Havia dois candidatos, probos e competentes. Um sofreu acidente fatal quando um Blindado Militar o atropelou na saída do cinema. O outro foi achado à margem do Lago Paranoá, com três facadas nas costas e uma carta de suicídio no bolso. Sem concorrentes, Inocêncio foi eleito no primeiro turno.

Há um mês da posse, Inocêncio e Mara Kutaya se casaram. Mal se conheciam e as desavenças se iniciaram na curta Lua de Mel.

– Gostaria que seu pai estivesse vivo para presenciar o casamento e a posse.

– Se ele estivesse vivo, ele seria meu marido e Presidente.

– Você não poderia casar-se com seu pai.

Mara Kutaya disse que o Senador não era seu pai, mas amante, ambos golpistas. Ela atraia os ricaços para o armazém e dizia que sentia mais prazer se fingissem estupro. Os otários topavam, o falso pai filmava tudo e depois os extorquiam. Ao ver Inocêncio com o Pé de Cabra, teve uma ideia melhor. Vazou as imagens da festa e armou para a mulher do político medíocre pedir o divórcio. Se Inocêncio fosse Presidente e seu marido, ganharia muito mais com propinas e desvio de verbas públicas, além de se tornar Primeira-Dama, viajar pelo mundo e pagar tudo no cartão corporativo, com sigilo de cem anos.

Inocêncio quis pular fora, mas Mara Kutaya explicou que o sistema é cruel e que quem entra no esquema não sai vivo. Ele só queria ser um pacato vendedor de mercadorias roubadas no “Shopping Metrô”, mas viu que a vida de presidente é mais glamurosa e lucrativa. Além disso, não precisa experiência, entender do negócio e não há riscos. É só sorrir e fazer promessas. Não precisa cumprir.

Porém, a ganância de Mara Kutaya aniquila todos ao seu redor e o sincericídio de Inocêncio denunciou o esquema da Primeira-Dama e revelou o trambique.

Foi como um encontro entre Midas, o mitológico rei da Frígia que transformava em ouro tudo o que tocava, e Medusa – quem olhassem nos seus olhos virava estátua de pedra. Midas e Medusa se olharam, se cumprimentaram e o encontro acabou em segundos. Não por acaso.

Ao contrário de Midas e Medusa, Inocêncio e Mara Kutaya foram inocentados por falta de provas, prometeram mundos e fundos e foram reeleitos. Os eleitores é que viraram estátua de pedra, não por obra do acaso, mas por suas escolhas. Vida que segue.

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