Será que hoje rola?

Tentar agradar a todos é muito difícil. Pensadores e escritores de autoajuda, hoje os influenciadores, que não pensam e nem sabem escrever, dizem que a pessoa tem de ser o que é, autêntica, sem se importar com a opinião alheia. Esquecem que, para ser autêntico e não se importar com os outros, é preciso ser muito rico.
Jamal Amado não é rico, mas nada lhe falta, exceto esposa amorosa, amigos leais, corpo sarado e dinheiro. Pensando bem, falta muita coisa. Sua esposa Gleidis Graça é um misto de sogra megera com patrão explorador e sócio sacana. É tão charmosa quanto um exame de próstata. A relação parece tosa de porco: muito grito e pouca lã. Foi o que conseguiu no App de relacionamento.
A vida social do casal é praticamente nula. As amigas dela não suportam Jamal Amado e os dele evitam encontrar Gleidis Graça. O jeito é saírem sozinhos, mas eles não se entendem. Divergem sobre restaurante, cinema, shopping, viagem e acabam não indo a lugar algum.
Com o tempo, a vida sexual também desapareceu. Nunca foi lá essas coisas, mas nos últimos anos, virou -273,15 K, o zero absoluto. Ele diz que Gleidis é frígida, monótona e tão estimulante quanto preparo de colonoscopia. Deve ter amante, pois sempre o chama por outro nome. Ela afirma que Jamal não é romântico, vive cansado, com sono e na hora H, falha mais que motor de carro com combustível adulterado. Certamente tem alguma piriguete na parada.
Fuçando no celular de Jamal, Gleidis descobriu que algo ia rolar no sábado. As mensagens eram cifradas, mas ela entendeu que o marido disse que ia encarar 3 em seguida. O local: Tasca Raparigas, das 15:30 até a meia noite.
Gleidis telefonou para Suzete e contou o que descobriu. O marido dela também anda estranho e avisou que tem plantão no sábado. Como seu casamento está pior do que o equilíbrio fiscal do país, em vez de brigar, ela agradeceu por um sábado sem aborrecimentos. Mas após o telefonema da amiga, a coisa mudou.
Antes de ouvir qualquer desculpa de Jamal Amado, Gleidis Graça avisou que vai visitar a mãe e só volta no domingo. Suzete procurou o endereço da Tasca Raparigas e as amigas combinaram irem ao local por volta das 18h, para pegar os dois canalhas no flagrante. O plano: armar barraco, fotografar e comemorar.
A Tasca Raparigas fica no fim de uma via secundária, sem saída. Tem duas portas iguais e um letreiro em neon: Tasca Raparigas. O porteiro estranhou a chegada de duas mulheres num ambiente masculino, mas ao dizerem que iam se encontrar com os maridos, abriu a porta com o letreiro Tasca e disse para seguir pelo corredor estreito até a porta verde.
Elas entraram com tudo e encontraram apenas uns 20 homens tomando cerveja e assistindo TV. Silêncio total após a chegada. Jamal foi ao encontro da esposa.
– Você não ia ver sua mãe? O que faz aqui?
– Soube que ia encarar 3 e vim conferir – disse Gleidis com um sorriso amarelo.
– A primeira acabou: Catar X Suíça. Agora vem Brasil X Marrocos e depois Haiti X Escócia. Quero encarar as 3 partidas em seguida! É a Copa do Mundo, Gleidis.
Muitos homens saíram, mas voltaram antes do próximo jogo. As mulheres, sem jeito, decidiram acompanhar a partida, para frustração geral. Ninguém podia xingar o time, nem falar palavrões. Para complicar, o Brasil jogou mal e empatou.
Jamal e o amigo não quiseram ficar para a terceira partida e o dono da Tasca avisou que o serviço das Raparigas entre as partidas seria cobrado. Suzete teve de pagar pelo não comparecimento ao Clube das Mulheres, onde comemorariam o barraco.
Hoje é sexta-feira, 19 de junho de 2026. Será que hoje rola? Jamal Amado ainda não sabe o que fazer. Se ficar em casa com Gleidis Graça, será que rola namoro? Se for à Tasca ver Brasil X Haiti, será que rola outra desgraça? Parafraseando Nelson Rodrigues, ninguém faz Política, Sexo e Futebol com boas intenções.
Vai Brasil!