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O Mundo em Desordem e a Geopolítica do Caos

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O Mundo em Desordem e a Geopolítica do Caos

O Mundo observa hoje ao vivo o colapso da ordem liberal internacional baseada em regras que perdurou por 80 anos. Com isso deixaram de valer na prática os princípios civilizatórios consagrados pela Carta da Organização das Nações Unidas (ONU) de 1945, que privilegiava o respeito à soberania dos estados, a não interferência em assuntos internos das nações e a manutenção da integridade territorial dos países. A truculência e a agressão bélica injustificada voltam a ser exercitadas às claras como ocorriam séculos atrás. O mais intrigante nisso tudo é  que as ameaças e as ações da potência hegemônica em decadência são recebidos como algo normal e até com certo contentamento em círculos da política, das finanças e da mídia internacionais.

Os ataques em curso dos EUA e Israel contra o Irã constituem grave ameaça à paz mundial e a estabilidade da economia global. Repete-se a agressão a um país do Oriente Médio sem nenhuma justificativa cabal. Um ataque bélico sem declaração formal de guerra e sem sequer a aprovação legislativa, enquanto havia conversações diplomáticas entre ambos os lados. Trata-se de um ataque covarde e cruel com vistas a eliminar fisicamente a elite dirigente iraniana e festejado como grande feito, sob a promessa de promover mudança de um regime e voltar a entronizar a antiga elite monárquica iraniana subordinada aos interesses do Ocidente e capaz de abrir mão do controle nacional sobre os seus recursos naturais.

Assiste-se, portanto, a uma verdadeira releitura da “Geopolítica do Caos”, termo cunhado pelo jornalista Ignacio Ramonet em seu ensaio de 1997 em que defendia que o paradigma de comunicação global aferidor da lógica de mercado, cujo modelo central seriam os mercados financeiros, valoriza a teoria dos jogos e a teoria do caos de Edward Lorenz  em detrimento da mecânica newtoniana. É então sob a roupagem de numa nova mecânica, ou na ausência dela (a incerteza e a insegurança), em que se assenta o atual sistema de relações internacionais. As ações agressivas da atual administração norte-americana seriam justamente os instrumentos dessa nova mecânica geopolítica que coloca o mundo à beira de uma conflagração geral.

Na verdade, o ataque preventivo ao Irã faz parte de uma estratégia desesperada dos EUA de retomar o controle sobre o Oriente Médio e de seus abundantes recursos energéticos para enfraquecer a segurança da China e colocá-la mais dependente de fornecimentos de petróleo do Oriente Médio administrados por empresas americanas ou ocidentais, visto que a China importa da região cerca de metade do petróleo que consome.  Como os EUA já controlam a Arábia Saudita, o Iraque e os pequenos países do Golfo, onde mantêm bases militares (por isso que estão sendo bombardeados pelos mísseis iranianos), falta só derrotar o atual regime do Irã para poder exercer o controle total sobre o petróleo e gás da região. É simples assim.

Nesse contexto externo ameaçador cabe ao Brasil agir com cautela e se movimentar no tabuleiro global de uma forma a não atrair a atenção do hegemon ensandecido, mas buscando sempre preservar seus interesses nacionais e a cooperação com os seus principais parceiros comerciais e com os demais países do sul global. A julgar pela situação interna nos EUA há razões para crer que o atual governo americano não se sustente até o fim do mandato e que a sua oposição política consiga vitória nas próximas eleições de novembro, com o que os EUA possam restabelecer parte de sua credibilidade internacional perdida e voltar a se comportar de forma responsável e como um elemento de estabilidade no concerto das nações civilizadas.

Autor:

José Nelson Bessa Maia, ex-secretário de Relações Internacionais do Governo do Ceará, é mestre em Economia e doutor em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (UnB). Atualmente, é consultor internacional.

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